Hoje: Jalapão

O Parque Estadual do Jalapão fica a 192 km de Palmas, capital de Tocantins e ocupa uma área de 34,1 mil quilômetros, ao leste do estado. A região faz divisa com o Maranhão, Piauí e Bahia e abrange 15 municípios tocantinenses: Barra de Ouro, Campos Lindos, Centenário, Goiatins, Itacajá, Itapiratins, Lagoa do Tocantins, Lizarda, Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins, Recursolândia, Rio Sono, Santa Tereza do Tocantins e São Félix do Tocantins.

O turismo mais comercial começou apenas em 2001, e é possível fazer a visitação de todo o território, em quatro dias. A socorrense Lígia Soares ficou acampada por sete dias e enviou um relato sobre sua experiência.

Fale, Lígia!

Faz quatro anos que escuto falar da exuberância da natureza e das expedições feitas na região, mas ninguém conseguiu me explicar o que era exatamente o Jalapão. A curiosidade pelo lugar e 16 anos sem ver um grande amigo, foram os motivos da minha viagem para um dos lugares mais isolados do Brasil.

No quesito férias na natureza, o Jalapão é a última bolacha do pacote. O número de visitantes ao Parque Estadual do Jalapão aumenta consideravelmente a cada ano, porém, ainda é muito pequeno e não há hotéis – só camping e poucas pousadas, em um ou outro vilarejo.

A paisagem é mesmo difícil de explicar: combina muito bem o cerrado com cenários diversos, de duna de areia de 30 metros de altura, que lembra deserto, junto com lagoa, rios de águas cristalinas e paredão de chapada, mas esta não é uma topografia que se repete em outros pontos do Parque do Jalapão.

A região combina paisagens de cerrado com caatinga e campos gerais, e o resultado que vi foi uma variedade de vegetação rasteira, árvores pequenas, com bastante espinhos, flores diferentes, lindíssimas e, escondidos no território, estão rios (com prainhas e corredeiras), veredas (belíssimos oásis de vegetação densa em torno de nascentes), cachoeiras e fervedouros (poços com areia finíssima em suspensão, que impede que você afunde). Algo incrível, fazia força para baixo d’agua, meu amigo me empurrava para baixo, mas eu não afundava. Eu posso dizer que nadei na areia, sem sentir o peso dela, sem tocar os pés no chão… E não fui engolida! A não ser pelos diversos peixinhos muito curiosos que me mordiam o tempo todo e nadavam me seguindo, por aonde eu ia.

Mas não é só isso que chama a atenção. Marcou, também, a aventura pelas estradas de terra, ou melhor, estradas de pura areia, com mais de trinta centímetros de altura, pela qual só percorrem carros traçados, sem nenhuma placa: isso dá ao Jalapão mais emoção e cria ainda mais expectativas.

O Parque Estadual também ganha outros ares com o povoado do Mumbuca, onde indígenas locais e quilombolas vindos da Bahia traçam outra preciosidade tocantinense: toda sua cultura,  histórias, músicas e o artesanato com capim dourado.

A arte manual ultrapassou as fronteiras do pequeno povoado e é produzida em outras localidades da região do Jalapão e cidades do estado. O capim dourado só pode ser colhido entre 20 de setembro e 20 de novembro, para que não entre em extinção. A colheita é regulamentada por lei que proíbe a saída do material “in natura” da região, somente em peças já produzidas pela comunidade local, visando, assim, a sustentabilidade ambiental, social e econômica do lugar.

“O turismo foi bom, porque vivíamos isolados, e colocou o pão na mesa; não sabíamos o que era fogão, gás, mas ainda carecemos de melhoria na saúde, infraestrutura e educação”, conta uma artesã de Mumbuca. “Recebemos energia elétrica só no ano 2000 e foi até notícia do Fantástico; quase não acreditamos que, antes, podíamos viver sem ela”, destaca.

Uma história pra lá de curiosa também se esconde no passado de uma das cachoeiras maiores e mais lindas, a Cachoeira da Velha, hoje usada para visitação turística, com corredeiras classe 3 e 4 para a prática de rafting. Antes, era o refúgio de um dos maiores e mais ricos narcotraficantes do mundo, procurado do mundo todo, o colombiano Pablo Escobar, que aterrorizou policias, juízes e políticos na Colômbia, e construiu uma propriedade no Tocantins para se manter fora do radar da polícia.

Escobar se tornou um dos mais ricos com o tráfico de cocaína, e comprou um terreno de 150 hectares na região do Jalapão, para refinaria de cocaína e plantações de maconha.

No local, escutei várias histórias: uma delas conta que a cultura principal da propriedade, oficialmente, era de jojoba para a produção de shampoo, quando na verdade, o forte era a canabis sativa.

Ouvi que as plantações, numa parte da propriedade, só podiam ser cuidadas por funcionários colombianos; assim, muitos tocantinenses, trabalhadores da propriedade, nem sequer sabiam da ilegalidade que acontecia ali, até um policial se infiltrar como funcionário, por dois meses, nas terras de Escobar e a polícia invadir o local, dali retirando 7 toneladas de cocaína.

Hoje, as terras são do Estado, aproveitadas pela população local para desfrutar da renda das atividades turísticas, e foi ali que fiz uma visitação na cachoeira, numa prainha em um trecho de remanso do rio, um lugar selvagem, território da onça pintada e seu filhote, recém-visto naquela região, com mata ciliar preservada, sombra e água fresca!

Acampamos uma noite e tornou-se palco da maior surpresa da viagem. Depois de acender fogueira para comer, escutar música, cantar e gargalhar alto, fomos dormir na barraca e, no outro dia, encontrei o jornal da manhã marcado na areia. As pegadas de duas onças, uma pequena, que encontrei sempre em lugares mais discretos, beirando o mato, e pegadas grandes, quase do tamanho da minha mão, a um metro da minha barraca, passando pela mesa de comida, que estava intacta, porque não tinha carne, imagino, indo para o rio, saindo e voltando para o mato, como quem foi embora.

Confesso que isso me deu um gelo, um medinho de pensar que ela poderia ainda estar ali, me olhando, ou ter invadido minha barraca para uma visita inesperada de predador à presa indefesa que eu era. Mas, ao mesmo tempo senti uma emoção… Depois, agradeci por ter visto somente pegadas!

A onça é a dominadora entre outros animais como as cobras, sucuri, cascavel e a cobra Jararaca Malha de Sapo, a mais temida e mais venenosa, segundo os moradores do povoado de Mumbuca.

Os principais locais para visitação são a Pedra Furada, o pôr do sol na Duna, a cachoeira da Velha, o rafting pelo rio Novo, na empresa Novaventura, a prainha da velha, a cachoeira do rio Formiga, de água azul cristalina, os fervedouros dos Buritis da Bela Vista, o fervedouro do encontro das águas, o mais forte deles, e as cachoeiras e o raftingde São Felix. Para quem gosta de trekking, o Mirante do Espírito Santo é a oportunidade de subir uma trilha no cenário de chapada.

Excursão

Eu sou bem aventureira e escolhi acampar, mas como turismóloga curiosa também aproveitei para fazer uma pesquisa das pousadas, restaurantes e de empresas de aluguel de carros traçados para grupos. E estou programando um grupo de socorrenses interessados numa viagem absurdamente linda, numa excursão para o fim de setembro, em parceria com o Jaime, da CatetoTur, e com pousadas e guias turísticos do Jalapão. Telefone para contato 3895-1187 ou whats 99492-7609. Todos deveriam conhecer esse lado espetacular do Brasil!

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