“Informação! Diria que este é o recurso mais importante e necessário às famílias e cuidadores”, afirma a dra. Rosalía Matera

O Dia Mundial do Alzheimer reforça importância do cuidado com os doentes, e foi comemorado em 21 de setembro. A data foi instituída pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e tem como objetivo promover a conscientização da população sobre o problema, bem como reforçar a importância do cuidado com os doentes. Pensando assim, entrevistamos a médica dra. Rosalía Matera de Angelis Alves, das áreas da Geriatria e Homeopatia. Confira!

Quais os primeiros sinais da doença? Como diagnosticá-la?
Os primeiros sinais da Demência da Doença de Alzheimer (DDA) podem variar entre os indivíduos acometidos e também podem não ser valorizados, inicialmente, por pessoas do convívio diário, por atribuírem como “parte do processo de envelhecimento normal”, o que retarda a procura do médico para uma avaliação ampla e adequada.
Geralmente, o que se observa é um comprometimento da memória recente ou de fixação, como por exemplo, esquecer uma informação que foi vista há poucas horas ou não conseguir fixar o número completo de um telefone. Além da memória, podem surgir episódios de desorientação temporal e espacial, como por exemplo, não se ater ao dia do mês ou semana, ou não reconhecer um lugar já visitado previamente. É importante destacar que essas alterações não são constantes numa fase inicial, e se apresentam como falhas esporádicas, mas são suficientes para impactar na funcionalidade do indivíduo, ainda que de uma forma discreta. Ou seja, já existe um comprometimento da memória e de um ou mais domínios da cognição acompanhados de alteração funcional. Mudanças no humor e comportamento já podem estar presentes, concomitantemente, desde o início e, em alguns casos, o humor deprimido é a primeira queixa levada ao médico.

Existem estágios evolutivos da doença? Quais as diferenças entre eles?
Podemos dizer que existem quatro estágios ou fases da DDA: fase inicial, intermediária, final e terminal. Ou, como alguns classificam: fase leve, moderada, grave e muito grave ou terminal. Essas classificações são dinâmicas e podem variar quanto à duração do curso de cada uma delas, entre as pessoas acometidas.
A fase inicial ou leve, já mencionada anteriormente, pode levar de 2 a 4 anos de evolução e o principal sintoma é o comprometimento da memória recente. A fase intermediária ou moderada pode durar de 3 a 5 anos e caracteriza-se pelo agravamento dos sintomas e por comprometimento das atividades instrumentais da vida diária, principalmente as executivas, como por exemplo, seguir a sequência de uma receita ou etapas de uma tarefa diária habitual. Também podem aparecer outros sintomas como: afasias (dificuldades de expressão da fala ou escrita, bem como na compreensão, durante uma conversa ou leitura); apraxias (dificuldades para realizar movimentos habituais, sem outro comprometimento que justifique) e as agnosias (alteração da capacidade de reconhecer algo através da percepção sensorial). É comum, nesta fase, aparecerem sintomas de “desconfiança e conspiração”, classicamente expressos nas frases “quem pegou meu dinheiro (ou algum objeto pessoal) que estava guardado aqui”; “podem continuar a conversa que sei que estão falando de mim”. Também se acentuam as repetições de perguntas ou frases já ditas, as alterações de humor como depressão e irritabilidade, e as alterações de comportamento com agitação psíquica e/ou motora que podem se agravar com o entardecer (Síndrome do Pôr do Sol). Já a fase final ou grave, tem seu tempo de evolução bastante variável, conforme o início dos sintomas e os cuidados recebidos nas etapas anteriores. Caracteriza-se por agravamento dos sintomas e maior perda da funcionalidade. A memória antiga está comprometida, assim como a capacidade intelectiva e a iniciativa. Nesta fase, aparece ou intensificam sinais de apatia, prostração e isolamento social. “O individuo vai se tornando indiferente ao ambiente e às pessoas”. Aparecem sintomas como incontinência de urina e fezes, alterações na deglutição, maior restrição ao leito, com rigidez da musculatura corporal, o que confere alto grau de dependência de cuidados e estresse por parte da família. Alto risco para quedas e surgimento de úlceras por pressão, as chamadas escaras. A fase terminal ou muito grave caracteriza-se por maior restrição de movimentos, podendo o indivíduo adotar a posição fetal no leito, piora da contratura muscular e escaras, incapacidade para se alimentar e maior risco de infecções, engasgos e quadros de delírio, o que aumenta a chance de morte em 1 ano.

O portador tende a ficar agressivo?
Sim e não, pois depende da evolução da doença, conforme o tipo de personalidade e os cuidados recebidos. A maioria das pessoas tende a apresentar, em algum momento, comportamento agressivo ou traços de agressividade, ainda que esporadicamente.

O que fazer se o paciente for diagnosticado antes dos 65 anos?
Iniciar rapidamente o tratamento específico para a doença, com médico e neuropsicólogo, enfatizando o uso adequado das medicações disponíveis para o tratamento da DDA e desenvolver atividades que propiciem a reabilitação física, cognitiva e psicocomportamental. É recomendada a realização de atividade física supervisionada, aprendizado de línguas, música e exercícios para a memória (sudoku, caça-palavras, palavras cruzadas, jogo da memória,quebra cabeças, contação de histórias, rimas e outros).

Como é o tratamento da doença?
O tratamento da doença deve ser multiprofissional e interdisciplinar, com visitas regulares ao médico e aos demais profissionais da saúde, conforme evolução clínica e funcional.  Sempre recomendo, no início do quadro e durante o processo de tratamento, a Avaliação Neuropsicológica, que deve ser realizada por profissional habilitado, a fim de ampliar o diagnóstico das perdas cognitiva, funcional e psicocomportamental. O tratamento farmacológico específico e disponível para uso em nosso país são os Inibidores da Acetilcolinesterase (IAche), enzima que degrada o neurotransmissor acetilcolina na fenda sináptica. Atualmente, são três classes de inibidores que já se encontram disponíveis nas farmácias de alto custo da maioria dos municípios e estados brasileiros, além de poderem ser adquiridos por conta própria, nas farmácias convencionais. Outras substâncias farmacológicas existem e devem sempre ser utilizadas, analisando não somente a evolução clínica da doença, mas a condição de saúde integral do indivíduo, como a existência de outras comorbidades, o risco de reações adversas aos medicamentos, a capacidade nutricional, o suporte familiar e bem-estar do indivíduo. 

Quais seus conselhos para a família e o cuidador?
INFORMAÇÃO! Diria que este é o recurso mais importante e necessário às famílias e cuidadores. Buscar informações em fontes confiáveis e de forma contínua possibilita novos “olhares” e formas de intervenção dinâmicas, além de soluções e estratégias viáveis para os problemas que surgem, durante o processo de cuidado. Ter um profissional de referência para tirar suas dúvidas, realizar um seguimento apropriado e, se possível, participar de atividades com outras famílias de portadores da DDA é altamente recomendado.

Algo mais?
Além de INFORMAÇÃO de boa qualidade, procurar desenvolver a constante CAPACIDADE DE AMAR, que vem por meio da compreensão, da aceitação, do não julgamento e da predisposição em aprender, atitudes que devem ser cultivadas ao longo de nossa trajetória, mas que nem sempre são fáceis de executar. Fácil de dizer, falar, mas não igualmente fácil de executar. Nada ocorre como um passe de mágica. É necessário engajamento pessoal e amor.

Serviço – A dra. Rosalía Matera de Angelis Alves (CRM 95620) atende em Socorro no Projeto Mandala. Sua área de atuação é em Clínica Médica, Geriatria e Homeopatia; residência médica em Medicina Preventiva e Social (FCM – UNICAMP), especialista em Clínica Médica (SBCM), mestre em Gerontologia (FCM – UNICAMP) e pós-graduação latu senso em Homeopatia (EPH – SP). Informações: (19) 3895-8254.

 

 

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