Vai prestar vestibular? Saiba como se sair bem nas redações

Dando sequência a cobertura dos vestibulares, entrevistamos a professora Letícia Paula de Freitas Peres, colaboradora de fundações responsáveis por concursos e vestibulares na elaboração de provas e correção.

Letícia é Mestre e doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, foi professora de Produção de Texto na UNIBERO (Letras), FMU e Fiam (Letras, Hotelaria e Turismo), Teresa Martin (pós-graduação em Letras), Fals (Engenharia da Computação) e UNIMES (Pedagogia). No ensino básico, trabalhou na equipe de Redação do Colégio Bandeirantes-SP e foi assistente de coordenação e professora/corretora de redação do Colégio Coc-Universitário de Santos (8 anos). Atualmente, leciona na escola Craveiro e integra a equipe deste jornal. Confira:

Que dicas daria para quem quer se sair bem na redação?
Há duas formas de responder essa pergunta. Se você se refere às pessoas que se inscreveram para fazer um vestibular este ano, a primeira coisa é ler o manual do candidato ou o edital de inscrição e conhecer muito bem as regras do concurso. Cada prova segue uma linha pedagógica específica e adota critérios de correção de acordo com essa linha. Hoje, cada vez mais, no estado de São Paulo, os vestibulares estão se alinhando com o currículo estadual, que é bem semelhante ao usado para formular o Enceja e o ENEM. No caso de quem está pensando em fazer um vestibular mais para frente, procure ler jornais e revistas variados, de preferência impressos – certifique-se de que esses periódicos não seguem uma linha sensacionalista e que façam uso da língua padrão. Essa leitura vai ajudar de dois modos: você se manterá atualizado, estando preparado para discutir diversos temas que podem ser cobrados não apenas na redação, mas também nas provas de modo geral; além disso, a leitura de textos bem escritos ajuda a desenvolver seu próprio texto. Nesse sentido é bom conhecer também obras dos principais autores nacionais. Elas também podem ser aproveitadas na argumentação da redação.

Qual a estrutura de uma redação exemplar?
Hoje o ensino de língua portuguesa é baseado na “teoria dos gêneros”, então trabalhamos com uma noção de produção de texto com uma estrutura pensada para cumprir com uma função social e um tipo de leitor. Em alguns casos, como o da UNESP, FUVEST e ENEM, o texto é uma dissertação. As dissertações são textos acadêmicos, cujo objetivo é comprovar que possui repertório para defender seu ponto de vista. A estrutura, nesse caso, tem a ver com isso: em um parágrafo você prepara o leitor contextualizando o tema a ser debatido e “apontando” qual ponto de vista defenderá. Depois, é necessário apresentar argumentos, em cerca de dois parágrafos, demonstrar que não se trata de uma simples opinião, você refletiu sobre aquilo a partir de sua experiência de vida. E, por fim, toda dissertação deve ter um parágrafo conclusivo. No caso do ENEM, deve-se indicar uma proposta interventiva, uma solução para o problema. Esse modelo pode ser usado para qualquer dissertação. O que vai se alterar de exame para exame são os critérios de correção, que têm a ver com habilidades e competências relacionadas à escrita de modo geral, não só para a dissertação.

Há casos em que a redação não é uma dissertação?
Sim. A UNICAMP, que é procurada por muitos socorrenses – por ser gratuita e ter sede em Campinas, aqui pertinho – foi a pioneira nesse tipo de prova de redação. Lembro-me de quando trabalhava no Cursinho do Coc em Santos e muitos alunos ficaram perdidos porque a proposta pedia a escrita de um verbete explicando o conceito de “computação em nuvem”. Todos eles já tinham usado dicionários – impressos e online –, mas não sabiam que verbete é o nome dado para cada “entrada” de um dicionário ou enciclopédia. Ficaram nervosos e não conseguiram fazer uma leitura tranquila da proposta, acabaram zerando. Lendo com atenção as orientações da prova, perceberiam que era necessário criar um texto em que se definisse, explicasse o conceito questionado. No caso de vestibulares como esse, se você vai fazer a prova da UNICAMP, fique bem atento a todas as orientações da proposta. Para quem pretende prestar mais para frente, procure estudar de acordo com a proposta da teoria dos gêneros. Seja um bom leitor, procure ver os textos que existem no seu cotidiano de modo a entender seus objetivos. E, se um dia for fazer um vestibular da UNICAMP, lembre-se: incorpore a personagem descrita na proposta e escreva de acordo com o leitor sugerido.

O que deve ser evitado? O que pode fazer zerar na redação?
Eu sei que essa entrevista tem a ver com dar “dicas” para se sair bem na redação, mas minha primeira dica é: evite dicas muito específicas e fuja de modelos para uma redação perfeita. Cada vez mais o que se cobra nas redações é estilo (o modo pessoal como usa a linguagem) e autoria (a combinação de estilo com repertório próprio). Assim, procure se conhecer bem, se respeitando e usando suas experiências e bagagem cultural, sem se comparar com os outros. Não decore frases de filósofos e escritores para “enfia-las” na redação, siga a língua padrão sem fazer uso de palavras que destoem da sua linguagem… Leia com bastante atenção as orientações da proposta, porque deixar de segui-las pode fazer com que seu texto, logo na primeira leitura seja anulado. Redações zeradas incluem fuga ao tema, desrespeito ao gênero, recados para o examinador, partes desconectadas do texto, desenhos no meio do texto, desrespeito ao mínimo de linhas e, no caso do ENEM, uma conclusão (proposta de intervenção) que desrespeite os direitos humanos. Uma redação pode estar muito bem escrita do ponto de vista da linguagem e ser anulada. Quando converso com meus alunos, sempre me uso de exemplo: com 17 anos prestei UNESP, USP e UNICAMP. Tirei 10 e 9 nas duas primeiras, já na UNICAMP zero. Tenho uma queda pela linguagem poética e minha dissertação da UNICAMP foi zerada por ser metafórica demais. É fundamental compreender as orientações da proposta e se manter no tema e gênero.

Você sugeriria algum tema que poderia cair nos próximos exames?
Vou brincar com você e dizer que os temas estão semanalmente no jornal, porque as propostas são desenvolvidas a partir do cotidiano. Quando noticiamos sobre o projeto Copaíba, por exemplo, estamos dando um enfoque para a temática do meio ambiente. As diversas entrevistas também apresentam temas: inclusão social (autismo e síndrome de down), saúde, educação…

Algo mais?
Sim, faz parte da preparação estar tranquilo e estar bem descansado. Procure dormir cedo e fazer uma refeição leve antes da prova. Também sugiro que leve garrafinha d’água. Na hora da prova, leia primeiro a proposta de redação e faça um esquema do seu projeto de texto, depois realize as demais questões. Algumas vezes, a própria prova é pensada de modo a fornecer ideias para as redações – isso é bem comum na UNESP – e, tendo já feito seu esquema, você perceberá isso com maior clareza, podendo depois rever o planejamento e escrever com mais tranquilidade.

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