“As mudanças na quarentena também podem ser positivas”, pondera Nielsen

“Somos um todo feito de partes, precisamos sempre buscar o equilíbrio das partes. Só assim teremos uma  saúde integral, incluindo a física, a emocional, a mental, entre outras”, afirma Nielsen Lima.

Em edições anteriores trouxemos para o diálogo com o leitor, por meio de entrevistas, a visão das psicopedagogas Raquel de Oliveira Sartori e Regineia Tavares da Silva sobre as aulas remotas e a reconstrução das rotinas das famílias que têm filhos em idade escolar. Compreender o que norteia a pedagogia contemporânea e o papel do autoconhecimento, do equilíbrio emocional e da interação na construção de nossas rotinas foi apontado como crucial. Recebemos em nossa redação Nielsen Carvalho de Lima para retomar alguns aspectos já comentados nas entrevistas anteriores, além de responder algumas perguntas feitas por leitores.  Ela ressaltou a importância de exercitarmos o ouvir, de se trabalhar a escuta e de que, nesse sentido, a quebra da rotina a qual estávamos acostumados pode nos trazer novas perspectivas e aprendizado, enquanto seres sociais.  Confira:

Quando se pensa na rotina em orientar a criança e o jovem em casa, a pergunta que muitos ainda se fazem diariamente é: Como fazer? O que fazer? O que você poderia nos dizer a respeito?

É preciso criar a rotina de modo a se construir o entendimento de que se está em casa, mas não se está de férias.  Isso pode começar pela preparação do ambiente: sem TV, sem som, sem brinquedos ou animais domésticos. Se possível, se houver mais de um filho, procurar não colocar todos juntos fazendo as tarefas – pensar a individualidade de cada um. Não há necessidade que os responsáveis façam a lição, mas sim que acompanhem, o importante é perguntar para a criança ou adolescente, por exemplo,  o que entendeu daquela tarefa? Como procurou desenvolvê-la (…). O importante é fazer com que eles se expressem, que contem algo sobre sua experiência com a atividade. É fundamental que haja tanto o horário para que façam as atividades com as orientações recebidas da escola, quanto essa interação com a família. As duas coisas são importantes.

Há uma preocupação grande, por conta de alguns pais, com o isolamento dos jovens nesses últimos meses. Qual a sua percepção sobre isso?

A escuta é um elemento chave nesse contexto.  Precisamos ter diferentes olhares, analisar os fatos por diferentes ângulos, pois as rotinas que vivemos fora de nossas casas envolvem pessoas com diferentes personalidades, visões de mundo, concepções culturais. A nova rotina, essa do distanciamento social alterou isso: não se trata apenas de não se frequentar as aulas na escola. Houve a ruptura da convivência social. Antes se brincava na rua, na casa dos amigos, andava livremente pela cidade. Além disso, a escola nos traz a diversidade, porque nela estamos em contato com o que não pertence à nossa família. Cada cultura tem uma visão diferente para cada aspecto da vida e na escola existe esse diálogo. Agora, não apenas as crianças e adolescentes, mas toda a família está privada desse convívio. Então, é preciso se criar o diálogo e ouvir a visão de cada um. Entender a criança e o jovem. Não há uma receita do que se fazer, porque cada família terá um universo próprio. O que dá certo com uma família pode não dar com outra. É como um bolo, os ingredientes são básicos, mas o modo de fazer varia para cada um.

Então, você quer dizer que temos de ouvir nossos filhos? E, talvez, os jovens estejam se isolando em casa porque se sentem privados do convívio que gostariam de ter, com quem não é da família?   

Sim. Temos de ter o entendimento de que houve, de uma hora para a outra, a perda da alegria cotidiana, de se fazer as coisas com prazer.  Há uma preocupação em se reconstruir uma rotina de estudos, mas a rotina durante esse período de aulas remotas tem de incluir os diversos aspectos que a vida sempre teve ou deveria ter. É preciso ter o espaço para o lazer, a diversão, a companhia dos amigos nessa rotina doméstica. E o espaço para que tudo isso se faça, inclusive, em família. É preciso também encontrar formas de se gastar energia porque as diversas atividades a que muitos estavam acostumados lhes foram cortadas: futebol,  dança, ginástica, tudo foi interrompido. Agora se encontram fechados. Mesmo os adolescentes que têm uma rotina de trabalho, perderam o espaço de interação com outros de sua idade. Há que se reverter isso e buscar os aspectos positivos como o diálogo, a interação familiar, resgatar a importância das brincadeiras tradicionais, resgatar o histórico da família. Essas interações preenchem o espaço dos prazeres que nos foram tirados e cada família deve lidar de uma forma diferente com tudo isso. Uma das maneiras de diminuir o estresse e anseio é pensar em soluções e possibilidades (mudar o foco dos problemas), enxergar saída. Se não é possível fazer do modo que estava acostumado, pensar, criar, outra forma de fazer. Por exemplo, não vou na academia, mas posso fazer aulas on-line (o departamento de esportes e lazer disponibiliza diariamente ao vivo) ou baixar um aplicativo, o importante é realizar a atividade, continuar um hábito que faz bem. Outro exemplo…

– é o namoro: alguns adolescentes se queixam de não poder estar com o (a) namorado (a)  então estão buscando novas maneiras: mais conversas, vídeo chamadas.

Um ponto positivo nas casas, é que está ocorrendo uma maior aproximação entre os irmãos com os mais velhos ajudando os mais novos nos deveres, algumas famílias estão aproveitando para organizar a casa, fazer pequenos reparos, pinturas; em outras, os jovens estão aprendendo a cozinhar, experimentando novas receitas,  enfim, estão se ocupando de forma a se sentirem úteis, produtivos e isso reduz estresse e ansiedade.

Apesar da visão pedagógica contemporânea não ter por centro os conteúdos tradicionais, o desenvolvimento deles ainda é a grande preocupação de muitas famílias. Como você entende essa questão? 

Em relação a isso, há que se considerar que sempre existem conteúdos específicos, determinados para uma série, mas muitos conteúdos são retomáveis, construídos ao longo da trajetória escolar. Assim, cabe um foco maior no trabalho pedagógico com os que são necessários no momento, compreendendo que os demais serão ampliados, incorporados e trabalhados quando voltarmos às aulas presenciais, sempre respeitando os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento bem como as habilidades a serem desenvolvidas.

Ainda sobre a questão do isolamento, há uma preocupação com ele ocorrendo dentro de casa por meio do uso do vídeo game, que pode ter também uma função de interação com outros jovens. Como você analisa isso?

Tudo que é em excesso é prejudicial. O vídeo game tem vantagens e desvantagens, mas o tempo de uso precisa ser combinado entre os responsáveis e crianças e adolescentes. Alguns pontos positivos: Tem jovens que são tímidos, mas conseguem interagir com outros através dos jogos on-line; alguns jogos desenvolvem e ampliam as habilidades viso-espaciais; desenvolvem raciocínio estratégico; ampliam conhecimento de outra língua, como o inglês, entre outras vantagens. Mas o que está em questão, é como fazer para ele não se tornar um vilão nas relações familiares. Enquanto jogam vídeo game, o cérebro produz naturalmente uma alta dose de adrenalina, dopamina (entre outras substâncias) que deixam os jovens mais excitados, agitados, irritados (em um jogo de combate, o cérebro entende que a pessoa está em perigo, por isso a boca fica mais seca, o coração acelerado, alguns relatam que a mão começa a suar), também há o prazer de querer passar de fase, o que leva a ficar jogando por horas. À noite o uso exacerbado prejudica o sono, é preciso parar de jogar pelo  menos uma hora de antes de ir dormir. Novamente reforço a necessidade de ter rotina, horário para dormir e os pais estrarem atentos, pois muitos jovens estão trocando o dia pela noite e esse hábito interfere inclusive na alimentação. O vídeo game (na sua maioria) não gasta energia, tanto crianças como adolescentes, possuem energia e precisam gastá-la.

Nielsen Lima é psicopedagoga, psicanalista, trabalha com terapia floral e é facilitadora em Constelações Sistêmicas. Ela atende no Centro Clínico Saúde, Rua José Batista Pereira de Araújo, 185. Telefone: 3895-2865. Trabalha na Educação Municipal (atualmente está na Assessoria Pedagógica). Se você gostou dessa entrevista e tem algo a perguntar para Nielsen, escreva para nós: contato@jornalomunicipio.com.br

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