Brasil: O gigante com pés de barro

 

Foto: Divulgação

O Sonho de Nabucodonosor! Quem diria que as profecias de Daniel estariam se concretizando? Neste relato bíblico, o profeta Daniel apresenta um gigante com cabeça de ouro, peito de prata e pés de barro. O gigante era a representação metafórica do império babilônico que crescia, porém não se sustentava. O Brasil, obviamente, nunca esteve dentre as profecias de Daniel, no entanto, nunca nos coube tanto esta metáfora.

Desenvolvimento sustentável, que por si só é uma antagonia, apresenta no Brasil a sua face menos real. O desenvolvimento a qualquer preço, deixando de lado a cultura, a educação e, acima de tudo, o meio ambiente. Em um país de povo tão sofrido e enganado, a arma mais cruel que pode ser oferecida pelo governo é a promessa de desenvolvimento. Proposta que predomina desde a década de 50, onde o desenvolvimento econômico vira a maior propaganda de eleição e a possibilidade de dias melhores. Não há como discordar que um país mais rico tem menos problemas. O desemprego diminui, as famílias se estabilizam e a confiança aumenta. No entanto, a forma como se apresenta é covarde, é usar da fragilidade de um povo com propostas promissoras, porém que mais à frente serão cobradas com juros altíssimos. Mire como exemplos Brumadinho e Mariana.

Existem duas possibilidades de desenvolvimento de um país. Uma que vai levar décadas e será através da educação, da tecnologia, da pesquisa, da cultura e com respeito ao meio ambiente. E a outra, que é a visão de desenvolvimento rápido, usando as reservas naturais. A primeira foi o caminho tomado nas últimas décadas por países europeus, pela Coreia do Sul, Japão, Chile, entre vários outros países desenvolvidos. A segunda foi a forma que o Brasil e outros países em desenvolvimento escolheram. Vendemos o minério, o petróleo, a madeira, a soja, a carne, com uma estrutura simples, barata e rápida. Para isso, derrubamos florestas, esgotamos o solo, não investimos em infraestrutura e construímos barragens sem critério algum.

Obviamente que dependemos deste modelo. O minério, a agricultura e a pecuária movem o país. No entanto, precisamos avançar para uma forma mais responsável e sustentável. O exemplo de Brumadinho deixou claro que não aprendemos com Mariana e problemas futuros deixarão claro que não aprendemos nada com Brumadinho. A proposta de um desenvolvimento rápido, que tenha resultado em quatro anos, é interessante para o governo, mas os pilares básicos de uma nação, como educação e tecnologia não se desenvolve em pouco tempo.

Este modelo nos pesa agora com mais de 100 barragens nas mesmas condições de Brumadinho. Dentro da mesma proposta a Amazônia vem sendo devastada e em muitos estados brasileiros a estiagem vem sendo um preço muito caro, em outros, enchentes. Temos mais área de pasto abandonado no país do que áreas agrícolas. Mas a proposta foi, e continua sendo, tomar novas terras rumo às fronteiras agrícolas da Amazônia. Investir em tecnologia e usar as áreas abandonadas não é interessante, mas isso terá um custo muito alto futuramente. Talvez paguemos pouco por isso, mas será a herança muito ruim para nossos filhos.

Duas coisas são claras, a responsabilidade disso tudo é do governo, a culpa também. A culpa é dos governos anteriores, a responsabilidade do governo atual – entenda por governo um conjunto formado por presidente, ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores. Infelizmente não há mudança desta proposta, continuamos seguindo rumo a um desenvolvimento descontrolado. Se permitirmos o enfraquecimento das leis ambientais e o uso da Amazônia, logo teremos problemas mais sérios. Venho falando isso exaustivamente há anos.

O desrespeito ao meio ambiente, a proposta de desenvolvimento da forma mais simples e barata e a falta de investimento em educação, infraestrutura e tecnologia, viraram nosso ponto fraco e por aquilo que estamos pagando. O Brasil é um gigante com muito potencial, no entanto, nossos pés de barro impedem o nosso salto.

* Richieri Antônio Sartori é socorrense, biólogo, professor da PUC-RIO, com mestrado em Ecologia Aplicada pela mesma universidade e doutorado pela Escola Nacional de Botânica Tropical/Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em conjunto com a University of Puerto Rico na área de botânica / diversidade, com ênfase em restauração ambiental.

 

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