Com música, teatro e sonhos, Luiz Felipe consegue superar os preconceitos

É preciso respeitar as diferenças e proporcionar possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem a todos os indivíduos, sem exceção. Essa foi uma das principais mensagens que nos transmitiu o jovem Luiz Felipe Pasquini, 20 anos, autista, que passou uma tarde conosco na redação do jornal. Ele veio para conhecer as antigas impressoras, acompanhar um pouco de nossa rotina e também nos revelar alguns de seus sonhos.

Apatia. Isolamento. Incapacidade de comunicação. Essas são algumas características comumente relacionadas ao autismo. Luiz Felipe quebra todos esses estereótipos. Gosta de fazer amigos, de uma boa conversa, conta histórias, beija e abraça. Também gosta de teatro – de atuar e de estar na plateia -, faz parte do grupo dos escoteiros e não falta a uma atividade. Inclusive as divulga e convida outras pessoas a fazer parte do grupo.  Faz viagens e adora a praia, sua preferida a de Itanhaém. Ama os cavalos e gosta de festas e, em especial, do rodeio.

Mas, nem sempre foi assim, conforme relata sua mãe, Flavia Pasquini que, junto com ele, enfrentou – e enfrenta – diversos preconceitos. “Muitas vezes faço o contrário do que me disseram para fazer, quebrando, por exemplo, a rotina e fazendo coisas como mudar os móveis de lugar”, conta. “Também não sigo conselhos do tipo: não levar aos shoppings, por ser um local onde circulam muitas pessoas”, acrescenta.

Do diagnóstico, quando ele ainda tinha cerca de seis anos de idade, até hoje, Luiz passou por diferentes escolas e profissionais. Mãe e filho aprenderam, durante esse tempo, a viver cada dia de modo especial e único, enfrentando desafios para alcançar sonhos. “Tive de aprender a viver cada dia de uma vez para ajudá-lo a vencer os desafios e poder se desenvolver, realizando seus sonhos”, diz Flavia. E não foi fácil. A seguir, Luiz Felipe fala de sua paixão pela música, teatro e o desejo de ir sempre além.

Um leitor comentou ter ouvido você tocar um tango ao violino, em um recital na Biblioteca. Ouvimos também que o violino é sua grande paixão. Pode nos falar sobre isso?
Eu estudo violino no Conservatório, não é terapia como muita gente pode pensar. Do tango, eu queria muito tocar essa música e pedi ao meu professor, o Claudio Gatto. Mas eu não sabia que ia tocar. Fiz a apresentação normal, depois foi uma surpresa tocar o tango. Fiquei muito feliz e agradeci a todos os meus amigos. Meu sonho é ser um grande músico e tocar Vivaldi.

Como começou esse seu amor pela música?
Eu ouvia música quando era bebê, minha mãe punha para mim, música clássica. Depois, quando eu era bem pequeno, ia a esse lugar que gosto, o Parque dos Sonhos, e lá tinha um velhinho que tocava violino e ele me deixava ver o violino, fui gostando e querendo sempre mexer e tocar o violino dele. Depois eu conheci os outros instrumentos de corda, o violoncelo e o contrabaixo, mas o violino era o que eu mais gostava. E um dia ganhei um violino de Natal. E foi aí que eu comecei a estudar.

Esse velhinho a que você se refere é o maestro Luiz Gonzaga Franco, que dá nome ao Conservatório. Você estuda lá, como fez para se tornar um aluno?
Minha mãe fez a inscrição que tem todo semestre e eu tive de fazer um teste sobre as notas musicais, o professor tocou no piano e eu passei. Depois, começaram as aulas e minha mãe se inscreveu também para me ajudar a estudar, porque é difícil às vezes, mas eu gosto muito. Tenho o sonho de fazer parte da orquestra do conservatório. Uma vez eu e minha mãe tocamos junto com a orquestra, na Praça, foi emocionante. Todo semestre tem apresentação dos alunos, mas quero muito fazer parte da orquestra.

Além da música, tem alguma outra arte que você goste ou realize?
Gosto de teatro. Sempre vou às peças e também gosto de participar. Tem umas que são as minhas preferidas como a dos Saltimbancos e a do Menino Maluquinho. Decorei a peça dos Saltimbancos inteira porque gosto muito. Eu também fiz o carcereiro em um filme, que a Elsa Farias está gravando. Vou fazer mais filmes ou participar de peças, é muito divertido. Posso fazer parte do grupo que conta histórias na biblioteca. Faço vozes diferentes para ler e tenho um boi que uso para dançar e contar histórias.

Você fez alguns desenhos para nós, sempre gostou de desenhar?
Eu gosto de desenhar os personagens das minhas histórias preferidas. São muitas, como os Saltimbancos, Menino Maluquinho, Nem que a Vaca Tussa, Toy Story. Eu faço aulas com o professor Ulisses, eu tenho um desenho firme, com meu próprio jeito de desenhar, mas ele me ensina técnicas para colorir e saber escolher os tipos de lápis ou outros materiais de desenho. É muito bom, você deveria fazer uma aula também. Todo mundo pode aprender a desenhar…

Vou pensar sobre isso… Você teria algo para dizer ao leitor do jornal?
Muitas coisas, mas os escoteiros vão participar do Rua Viva, junto com os artistas. Vamos ensinar a fazer cadeiras mirante com bambu. Você deve vir e aprender também. Quem sabe pode até ser escoteira também, todo mundo pode.

Convite aceito
Estive no Rua Viva. Uma maravilha, gente alegre, de todas as idades! E lá estava o Luiz, entre os escoteiros, ajudando a cortar bambu para ensinar a fazer as cadeiras mirantes. Bem distante das ideias preconcebidas, chamava alto as pessoas que passavam e estava encantado com o movimento dos artistas ao seu redor. “Deveria ser sempre assim, o domingo”, disse. E pude presenciar uma cena por mim nunca antes pensada, em uma sociedade que crê na impossibilidade de interação do autista. Ao me apresentar um menino pequeno, que estava com o uniforme dos escoteiros em uma bicicletinha, Luiz lhe estendeu a mão e sorriu dizendo: “ele não quer apertar a minha mão…”  Letí Martin, da Redação

 

 

 

 

 

 

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