“Em tempos de pandemia, provocada por algo novo ou pouco conhecido pela Ciência, o jornalismo sério se torna indispensável”, Henrique Picarelli

Henrique Picarelli em uma de suas gravações

O trabalho do jornalista mostra-se cada vez mais importante para manter a sociedade informada e livre das fakenews. Entrevistamos o socorrense Henrique Picarelli, jornalista e documentarista da Globo News.

Qual o papel do jornalista e sua importância em meio à pandemia?

Em tempos em que a informação pode transitar entre o papel de aliado e de obstáculo, o jornalismo acaba tendo uma função essencial, ao meu ver. Em tempos de uma pandemia provocada por algo novo ou pouco conhecido pela Ciência, o jornalismo sério se torna indispensável. Desde quando as primeiras notícias ligadas ao novo Coronavírus surgiram, no final de 2019, na China, o jornalismo foi fundamental para tentar romper as barreiras que o governo chinês insistia em impor entre as notícias que ele desejava divulgar e como a proliferação do vírus se desenhava na realidade.

Essa insistência foi fundamental para que o mundo tivesse uma primeira noção do potencial daquele vírus.

Nesses quase 6 meses de cobertura, o jornalismo fortaleceu o seu papel de transmissor de informação mas, também, de levar – sobretudo através do telejornalismo – noções básicas de prevenção ao dar voz aos especialistas que trabalham com este tema.

Como tem sido o dia-a-dia no combate à notícia falsa ou à desinformação?

Atualmente, há vários grupos dedicados exclusivamente ao combate de notícias falsas e à verificação de dados, como o Fato ou Fake, do grupo Globo, a agência Lupa, o projeto Comprova ou o Verifica, do jornal O Estado de São Paulo. São grupos formados por jornalistas que passam o dia checando informações veiculadas, principalmente, nas redes sociais. Em tempos de pandemia, esse trabalho cumpre um papel social importantíssimo porque as publicações, que antes da pandemia transitavam entre assuntos políticos e econômicos, passaram a advogar causas sanitárias e médicas, podendo – dependendo do conteúdo, levar as pessoas à automedicação e hábitos que comprovadamente não trariam algum tipo de segurança diante do novo vírus.

Acredita que muitas pessoas ainda não enxergam a gravidade da situação? É desinformação?

Colocar a culpa na desinformação é transferir apenas aos veículos de comunicação e às autoridades públicas a responsabilidade do que estamos vivendo. Acredito que há uma parcela de desinformação como há, também, uma politização da pandemia, o que acaba criando uma névoa sobre o que está acontecendo no país e no mundo. E, esses interesses que estão além da questão prática do combate à pandemia, acabam gerando dúvidas, comportamentos contraditórios aos recomendados pelas principais instituições ligadas à saúde no mundo, questionamentos difusos que não contribuem, de fato, para tratar o problema do tamanho que ele é.

Como cada um pode fazer sua parte nesse combate?

Hoje, diante de tantas instituições trabalhando no combate às notícias falsas, se tornou muito fácil verificar se aquela publicação traz, ou não, dados reais. Na maioria das vezes, uma rápida pesquisa na internet é o suficiente para ter acesso à notícia que recebemos e que pretendemos dividir. Todas essas instituições têm canais que podemos usar para verificar a veracidade de uma postagem, de uma foto, de um link. A primeira coisa é ter a pré-disposição para isso e um compromisso com o que divulgamos. O que tenho percebido é que o nosso nível de exigência cai quando aquilo que recebemos traz argumentos que casam com o que pensamos. É uma espécie de afrouxamento já que aquele conteúdo corrobora com o que penso, com o que acredito. E essa pré-disposição em checar, ao meu ver, pode fortalecer as verdades que carrego ao aprimorar o meu argumento, ao invés de contribuir para uma discussão irracional, apenas entre as pessoas que pensam da mesma forma que eu. A democracia perde com isso. A cidadania perde com isso. E a pandemia, que tem nos afetado a todos de diferentes maneiras, ganha uma sobrevida quando o desejo coletivo é que ela passe o quanto antes.

 

 

Compartilhar/Favoritos

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Você deve ser de logged em para postar um comentário.