Entre empatia, simpatia e aversão: Mata Ciliar orienta sobre relação com os animais silvestres

Cachorro do Mato resgatado

“A pior coisa para o animal silvestre é a aproximação com o ser humano, quando animais como os lobos-guarás se aproximam das cidades é porque estão sendo expulsos de seu território. É importante estudar as causas da aproximação.”, diz ambientalista.

Ouriços, capivaras, gambás (raposo), saguis, seriemas, garças, tucanos… e toda a passarada…Cobras, lagartos, pererecas, sapos, aranhas… Eles sempre estiveram entre nós, não apenas nas áreas rurais, na urbana também, refugiando-se em forros, comendo fios de eletricidade, dividindo a ração e a água dos cachorros e gatos. Nos últimos tempos, entretanto, as mudanças climáticas, a estiagem, constantes queimadas e, mais recentemente, diversos focos de incêndio têm feito com que se aproximem cada vez mais das propriedades rurais e da zona urbana. Isso, combinado a uma expansão urbana e agropecuária desordenada em toda a nossa região, tem deixado os animais silvestres sem saída. E nós nos dividimos entre a simpatia e aversão, quando o adequado seria desenvolver a empatia de modo a compreendê-los, respeitá-los e estabelecer o melhor convívio.

“O dilema de como proceder quando os animais se aproximam não é exclusivo dos socorrenses, é cada vez mais comum em todo  estado de SP. Falta um canal de relacionamento sobre o assunto, assim é importante fortalecer a relação com as ONGs que tratam das questões ambientais. Socorro tem o privilégio de ter a Copaíba que trabalha para a conscientização da importância da recuperação da mata nativa.”, diz Samuel Nunes, da Mata Ciliar, ONG que faz o monitoramento dos lobos-guarás do Rio do Peixe junto com a Copaíba. O Município conversou com ele, via Google Meet, sobre a importância da informação para desenvolver a empatia pela fauna socorrense e criar uma relação de convívio que seja boa para todos. Confira:

O caso dos lobos-guarás do Rio do Peixe 

Os lobos-guarás estão se aproximando das áreas mais habitadas, pois o seu habitat está sofrendo algum tipo de distúrbio. É muito incomum essa espécie aproximar-se de humanos e essa situação é um alerta de que algo está errado. A Copaíba entrou em contato conosco para, em conjunto, realizarmos o monitoramento e garantirmos um melhor entendimento de como lidar com esses canídeos. O morador local naturalmente acabou se apaixonando pelos lobos-guarás e adotou uma relação afetiva com eles, o que é bastante preocupante, pois os animais acabaram tornando-se dependentes do humano. São animais que têm um território de cerca de 100 Km2, não ficam no mesmo lugar; quando mudarem de local, provavelmente se aproximarão de outros humanos, esperando o mesmo tipo de relacionamento.

O mais preocupante, nesse caso específico, é que a maioria das pessoas não tem relações amistosas com os lobos, “passam fogo”, já que ele são vistos como lobo-mau, que come galinhas… Então, quando alguém faz com que um lobo fique domesticado, como se fosse um cachorro, na verdade o coloca em risco. Isso pode acontecer com qualquer outro animal silvestre.

Alimentação

Não é adequado alimentar espécies silvestres, elas acabam se acostumando com comida fácil e perdem o comportamento de buscar alimento sozinho. Lembre-se: não são animais domésticos e não devem se acostumar a receber a alimentação sem buscar por ela.  Se gosta de pássaros, por exemplo, plante árvores frutíferas. Eles virão em liberdade.

Como proceder no caso de um animal estar machucado ou precisar de ajuda

Resgatado na zona urbana

As aves  – Recebemos muitas ligações sobre o resgate de pássaros. É bastante comum encontrá-los atordoados no chão, porque assim que empenam a mãe põe para fora do ninho, para que aprendam a voar. O primeiro impulso das pessoas é sempre pegar para cuidar; mas, isso pode ser uma decisão muito equivocada e significar um triste fim para o animal, já que o melhor para ele é estar sob os cuidados de sua mãe. Por isso, quando encontrar um filhote de ave nessa situação, o correto é vasculhar o local em busca do seu ninho. Caso encontre, deve tentar devolvê-lo, pois é a sua mãe que poderá suprir todas as suas necessidades. Na maioria dos casos, ela vai cuidar dele até ficar pronto para voar. Ele fará mais algumas tentativas de voo, até se tornar independente. Caso a ave esteja machucada, deve entrar em contato com os órgãos públicos para proceder com o recolhimento e destinação do animal para o cuidado por especialistas.

Mamíferos – No caso dos mamíferos, um problema frequente é que as pessoas façam resgate desnecessário de filhotes. A mãe costuma ir buscar comida e deixa o filhote em um local considerado seguro.  Se fizermos o resgate, quando ela voltar não encontrará o filhote, o que lhe causará um trauma. Por mais que haja boa vontade ou que a ONG tenha recursos técnicos, jamais será como a mãe cuidar. Caso se observe que o filhote está em perigo, deve se entrar em contato com os órgãos públicos ou ONGs capacitados para analisar o problema e, se for o caso, fazer o resgate.

Gambás: o que fazer com os filhotes que ficam na bolsa da mãe quando ela morre?

Geralmente os óbitos das mães acontecem por causa de ataque de cachorro ou atropelamento. Nesses casos, o ideal é tentar recolher os animais sobreviventes tirando do local de risco para que não sofram os mesmos problemas que vitimaram a mãe. Depois,  o órgão público deve ser acionado para proceder com o acolhimento e destinação dos filhotes sobreviventes para uma instituição que cuidará deles até estarem desenvolvidos o suficiente para voltarem à natureza.

Macacos – As pessoas se encantam com os “macaquinhos”, em especial os saguis, o que é perigoso, pois devido à semelhança genética pegam muito fácil nossas doenças e nós as deles. Por exemplo, uma situação comum, ao se deparar com o macaco a pessoa divide uma banana com ele… ali já pode transmitir algo. Além disso, eles são oportunistas. Vão se aproveitar dessa relação amistosa e se acostumar a vir buscar comida e podem causar baderna nos quintais e dentro das casas. Nisso podem correr diversos riscos como serem atropelados, tomarem choques, serem atacados por cachorros. Lembre-se: Não se deve alimentar macacos. Em hipótese alguma. Se aparecerem com frequência devem ser ignorados.

Resgatado na zona urbana

Protocolo para o resgate de animais

É importante que se conheçam as leis, pois o munícipe, pessoa física, não pode fazer o transporte de um animal silvestre. Se for parado pela polícia rodoviária ou federal, pode ter que responder por crime ambiental. Sempre que um animal for encontrado machucado e precisando de atendimento, o correto é primeiramente entrar em contato com o órgão público (Polícia Ambiental, Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal) que está capacitado para proceder com o resgate de forma correta e segura. Caso as tentativas sejam frustadas é importante documentar e oficializar toda a situação antes de tomar alguma outra decisão como destinar um animal a uma instituição que possa recebê-lo.

 

 

 

 

 

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