Fake News: O que recebemos de notícias foge ao nosso alcance, mas o que compartilhamos é, sim, de nossa inteira responsabilidade”, enfatiza jornalista

Em um momento no qual as mídias digitais vem sendo a principal fonte de informações com relação ao Coronavírus, outra epidemia se agrava: a das fake news.

Segundo a jornalista socorrense, Ana Paula Palazi, as fake news são notícias falsas, parcialmente falsas ou tiradas do contexto. Elas são disseminadas por motivos que podem ser acidentais; mas, na maioria das vezes, são intencionais. “Esse tipo de conteúdo é produzido com objetivos nem sempre claros para quem recebe e busca prejudicar uma pessoa, um grupo ou enganar o leitor para gerar algum tipo de reação ou movimento da parte dele”, explica ela.

Ela conta que a divulgação de notícias falsas não é um fato novo. “Os primeiros registros vem da Roma antiga, quando moedas eram produzidas com escritos que desqualificavam Marco Antonio pelo relacionamento que ele mantinha com Cleópatra”, relata a jornalista. “Com a internet e as redes sociais, ficou mais fácil divulgar qualquer tipo de conteúdo para um número maior de pessoas. Se por um lado, a tecnologia democratizou o acesso ao conhecimento, por outro dificulta o rastreamento da origem dessas notícias falsas e a responsabilização de seus autores. Os efeitos danosos causados por elas podem pôr em risco até a vida de pessoas”, completa Ana Paula, que participou esta semana do projeto Webinários, do Rotaract Club, falando sobre o tema. Ela também deu uma entrevista sobre o assunto ao Jornal O Município de Socorro.

Qual a diferença entre ‘fake news’ e notícias erradas?

Quando existe uma falha de apuração de um veículo de comunicação, isso é uma notícia errada. Nos jornais, revistas, programas de rádio e TV a ética protege o direito de resposta de alguém que, por algum motivo, tenha sido prejudicado. Existe também seções de “erramos”, mais comuns nos jornais e revistas, onde a edição daquele veículo corrige a informação. Em sites noticiosos da internet, que prezam por boas práticas, as alterações de conteúdo são identificadas com o horário da modificação e, em alguns casos, ainda é indicado o final do texto o que foi corrigido. Isso garante transparência e gera confiança. Todos estamos suscetíveis a cometer erros. No caso das fake news é diferente. Elas são feitas para transmitirem informações erradas com intuito de desinformar e deslegitimar. Os erros são propositais e não serão corrigidos, pois quem produziu aquele conteúdo ou ajudou a compartilhar não tem compromisso com a verdade.

Qual a forma mais comum de propagação?

As redes sociais têm sido as maiores propagadoras de notícias falsas. O perigo é ainda maior porque com a evolução da tecnologia foi possível automatizar a disseminação de conteúdos. Ou seja, hoje robôs controlados por pessoas já fazem essa atividade. Podemos encontrar também sites construídos para dar uma falsa ideia de veracidade e rastreabilidade do conteúdo fake. Essas páginas simulam a construção de outras verdadeiras para induzir o internauta ao erro. Com a “profissionalização” das fake news, como meio de manipulação da opinião pública, fica cada vez mais difícil identificar, sozinho, montagens de conteúdo, principalmente quando falamos de fotos e vídeos.

Como se conseguem identificar as ‘fake news’?

O primeiro passo é sempre desconfiar. Não importa de quem você recebeu a mensagem, sempre considere que seu parente ou amigo pode ter sido vítima de uma fake news. O segundo passo é ler tudo, no caso de um texto, ou ir até o fim de um áudio ou vídeo. As mensagens falsas usam de princípios do marketing e até do jornalismo. Tentam captar a atenção por meio das suas emoções ou crenças. Dito de outra forma, falam o que você gostaria de ouvir. Quase sempre trazem uma manchete bombástica, de caráter vago ou alarmista. Não têm fontes confiáveis e apresentam erros de português. Para não cair numa fake news, ou pior, ajudar a induzir os outros ao erro faça duas perguntas a você mesmo quando receber uma mensagem. A primeira: “essa notícia é verificável?”, isso significa saber, por exemplo, quem é a pessoa que fala num vídeo ou tem o nome citado num áudio ou texto. Depois: “Alguém já verificou?”. Por causa do avanço das fake news foram criadas diversas agências especializadas em checar os fatos. Fazer uma busca rápida no Google sobre o assunto da mensagem já pode dar uma ideia se ela é falsa ou não. Só depois decida compartilhar.

Muitas pessoas acabam culpando a tecnologia pela facilidade na publicação e na disseminação das fake news. Você concorda com isso? Como podemos incentivar o uso responsável da tecnologia?

Temos que entender que o que recebemos de notícias foge ao nosso alcance, mas o que compartilhamos é, sim, de nossa inteira responsabilidade. É preciso ter senso crítico. E a melhor forma de não ser enganado é buscar informações em vários lugares. Sair da nossa bolha de informação e manter a mente aberta para ouvir opiniões diversas e até contrárias à nossa ajuda a construir uma visão mais ampla de mundo. Isso passa por uma educação ou reeducação digital. Sabemos que qualquer comunicação, seja ela a mais simples – como um pai falando com seu filho – não é isenta de interesses dos dois lados. Isso não significa que o pai esteja mentindo para o filho ou vice-versa. Assim também, o jornalismo ou a ciência não são isentos de posicionamentos. Cada profissional age baseado nas suas experiências de vida, mas comprometido com a ética do seu trabalho. Além disso, muitos veículos de comunicação informam claramente sua linha editorial. Negar as fontes oficiais de informações, para acreditar numa fonte desconhecida que você não tem como saber quais são os reais interesses é, no mínimo, algo sem lógica.

Na sua opinião qual seria a maior dificuldade no combate às fakes news?

Eu acredito que a maior dificuldade reside numa coisa chamada tempo (ou que alguns podem chamar também de preguiça). Se cada um de nós seguisse os passos desconfiando de todas as informações recebidas, só compartilhando aquelas notícias onde realmente a fonte é conhecida ou após uma rápida checagem dos dados, conseguiríamos criar uma barreira às fake news. Outra forma seria se nós mesmos fossemos verdadeiros com os outros, enviando mensagens como: “não sei se isso é verdade, mas gostaria de ter sua opinião”. Eu costumo informar aos meus amigos quando eles me mandam fake news, porém, percebo que alguns sequer leem a minha explicação, respondendo apenas com uma figurinha. Raras são as vezes que alguém me diz: “vou avisar quem me passou”. O mecanismo reverso quase nunca acontece e, assim, mentiras continuam por anos circulando nas redes. É preciso que o outro também esteja aberto para que essa corrente seja quebrada. Uma forma encontrada pelas empresas tem sido criar barreiras ao compartilhamento massivo. No WhatsApp isso reduziu em 70% a frequência de mensagens encaminhadas. Mas, os outros 30% ainda dependem dos usuários.

Algo mais?

Estamos vivendo tempos de intolerância. Não é fácil manter a calma diante dos problemas que nos cercam, mas precisamos entender que as fake news não ajudam. A violência dentro e fora das redes sociais também não. Para aqueles que estão desiludidos, existem outras formas de se informar com qualidade. Somos livres para escolher onde vamos buscar informação. Que façamos boas escolhas!

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