Fonoaudióloga explica como aplicar o Método Denver com crianças autistas

Desenvolvido principalmente nos Estados Unidos, o Modelo Precoce de Denver é hoje considerado um dos melhores tratamentos de autismo que existe no mundo. Segundo a fonoaudióloga Regiane Rissato, ele centraliza os esforços do tratamento exatamente no coração dos sintomas do autismo ou seja: a reciprocidade social, o engajamento social e o interesse social.

Regiane é Especialista em Motricidade Oral, em Linguagem, em Neuropsicologia aplicada em Neurologia Infantil e tem Formação Profissional como Terapeuta do Modelo Denver de Intervenção Precoce para crianças com Autismo pelo Instituto Farol.  Sobre esse assunto, ela deu detalhes ao O Município:

O que seria o Modelo Denver de Intervenção Precoce? Qual a sua relevância no tratamento de autistas?

Foi desenvolvido em laboratórios e centros de excelência e depois de 30 anos de pesquisa identificou-se que era um Modelo de Intervenção Precoce que apresentava características de desenvolvimento para as crianças, de suporte a socialização e de redução dos sintomas de autismo tão intensos que valia a pena transformá-lo em um tratamento clínico para as crianças no Espectro do Autismo.

O primeiro objetivo é trazer a criança de volta para a interação social, fazer com que observe, imite, interaja mais com outras pessoas. É auxiliar as crianças a usar a própria motivação que elas têm por objetos e por pessoas para o aprendizado de novas habilidades em todas as esferas do desenvolvimento.

Nesse modelo utilizamos o jogo, a brincadeira como base para o aprendizado, porém não um jogo controlado que acontece somente no ambiente estruturado, e sim um jogo no chão em que nós fazemos rotina sensório sociais em que o interesse da criança guia a intervenção. Utiliza-se vários princípios, incluindo os princípios da Análise Aplicada do Comportamento, mas apenas os princípios e dentro de um contexto natural, de jogo, contexto que ela vai vivenciar.

A sala de terapia do Denver é como um quarto de criança, geralmente a terapia é feita até mesmo em casa pelas assistentes terapêuticas supervisionadas por um profissional com a formação no Modelo, adaptando o ambiente para que a criança possa ser capaz de aprender, de funcionar, se desenvolver dentro do ambiente natural dela com as brincadeiras que ela geralmente gosta de fazer.

O Modelo Precoce de Denver utiliza estratégias naturalistas, estratégias num ambiente natural, reforço natural, o reforço é o próprio reforço da interação social que vai se construindo à medida que a criança avança na terapia, o controle instrutivo, ou seja, a capacidade da criança de se engajar, de participar, vem pela sua própria motivação e pelo prazer que ela tem que fazer as atividades.

Há quanto tempo você trabalha com autistas?

Há 15 anos, hoje meu primeiro paciente com autismo está com 21 anos e já é um adulto, mas antigamente a demanda era menor e devido as dificuldades cognitivas associadas (inteligência abaixo da média), nem sempre chegavam às clínicas e sim aos centros de tratamento, como a APAE de nossa cidade. Hoje o cenário mudou. O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) abrange um número muito maior de indivíduos e muitos com a cognição (inteligência) preservada ou acima da média comparado com a população em geral. Um indivíduo é totalmente diferente do outro, os aspectos descritos acima podem direcionar o nosso olhar, mas nem todos os autistas não olham nos olhos, não interagem ou fazem movimentos com as mãos ou com o corpo ou até tem altas habilidades, eles são como nós, com suas preferências e particularidades. Eles só veem o mundo de uma forma diferente, dizemos “atípica”, enquanto a maioria “os típicos” veem de forma “típica”, é só uma característica como qualquer outra, mas precisam de ajuda em alguns aspectos específicos, conviver com eles me ensina a ver o mundo de diferentes ângulos todos os dias, a ser mais espontânea e valorizar as coisas que são realmente importantes.

A intervenção precoce é vista como um grande trunfo no desenvolvimento dos autistas?

Com certeza! Na verdade, não temos outro caminho, a ciência já nos trouxe várias pesquisas comprovando a eficácia de uma intervenção precoce, pois reduz a severidade dos sintomas do autismo e acelera o desenvolvimento da criança em todos os domínios, mas particularmente nos domínios cognitivos, social, emocional e linguístico. Quanto mais cedo começamos a intervenção, melhor o resultado, melhor o prognóstico da criança, isso se dá pela plasticidade cerebral, ou seja, pela capacidade do cérebro de reconstruir suas conexões. Um erro muito frequente é um profissional identificar sinais de autismo e pedir para voltar depois de um tempo. Outro ponto importante é a intensidade do tratamento, aqui entram as assistentes terapêuticas que são treinadas e supervisionadas para fazerem o número de horas necessárias se tornando acessível para as famílias, seria inviável o profissional fazer sozinho pelo tempo desprendido, mas principalmente pelo custo.

Quais são os desafios para os profissionais?

O maior desafio é ir em busca de conhecimento. Sou Fonoaudióloga há mais de 20 de anos, mas o conhecimento adquirido durante toda a minha formação não era suficiente para atuar com competência com o autismo, mas sempre busquei fazer o meu melhor, tomando o cuidado de encaminhar para outro profissional fazer o que eu não sabia fazer com tanta propriedade naquela época e tenho esta conduta até hoje. Não há nada de errado em dizer, não sei fazer isso ou aquilo, mas seu filho precisa de um tratamento especializado, então vou te encaminhar por questão de prioridade. Precisamos de ajuda de todos os profissionais da educação e da saúde, principalmente dos professores de creches/educação infantil e dos pediatras, pois são eles que acompanham o desenvolvimento da criança e devem estar atentos aos sinais precoces do desenvolvimento infantil. Quanto mais informações eles buscarem ou receberem mais cedo as crianças vão atingir todo o seu potencial de desenvolvimento.

E para a família? Qual a importância da participação familiar no tratamento de um autista?

A família é a parte mais importante por ser a base de tudo, mas também a mais difícil, mais dolorosa para mim, desculpas pelo desabafo, mas sinto muito, muito mesmo toda vez que tenho que dizer da hipótese daquela criança estar no Espectro do Autismo, não porque seja ruim estar no espectro, mas entendo que seja difícil lidar com o desconhecido, primeiro temos que lidar com as expectativas que os pais criaram em relação aos filhos, depois com a aceitação da hipótese diagnóstica e posteriormente com a conscientização da importância da intervenção, pois muitas vezes acham que seus filhos podem melhorar e desenvolver sem tudo aquilo que está sendo proposto, a resposta a intervenção é tão rápida que após melhorarem um pouco interrompem o tratamento e voltam a esperar o desenvolvimento natural sem direcionamento, mas nem sempre isso é o suficiente. Aos pais cabe ser “Pais” e não terapeutas, podem ser também se assim escolherem, mas precisarão de informações e treinamento para isso.

Existem alguns sinais aos quais se deve dar mais atenção?

O primeiro que se pensa é o atraso no desenvolvimento da fala, em muitos casos há relatos que a criança chegou a falar algumas palavras e posteriormente deixou de falar, mas a observação do desenvolvimento motor também é importante e envolve o controle do tronco, da cabeça, o sentar, engatinhar até o andar, porém a criança pode ter atrasos nesses marcos, mas também pode fazer tudo precoce e independente para não depender do outro. E o último aspecto, não menos importante é a reciprocidade social, o engajamento social e o interesse social, segue alguns exemplos: olhar quando chamado pelo nome em 80% das vezes, mostrar ou levar algum objeto para o adulto partilhando seus interesses, sorrir para outro, iniciar e aceitar interação, brincar com diferentes brinquedos e de diferentes formas, entre outros.

Quais atividades dentro de casa são indicadas para autistas?

As mesmas de uma criança típica, os pais até fazem no início, mas vão deixando de fazer e oferecer à medida que a criança começa a ter interesses restritos, devemos sim respeitar os interesses da criança, mas devemos continuar oferecendo várias oportunidades de aprendizagem através de contatos com familiares e amigos diferentes, interações com reciprocidade, brincadeiras em conjuntos, passeios em diferentes contextos, canções e muita alegria. Os familiares muitas vezes deixam de interagir ou pedir algo àquela criança por ela não responder apropriadamente ou ficar irritada com aquilo colaborando com a sua rigidez, alguns deixam até de socializar ou quando socializam fazem sempre da mesma forma e evitam contextos diferentes devido aos comportamentos inapropriados que podem ser julgados socialmente, essa é a parte mais difícil.

Algo mais?

Quero agradecer o convite a dar essa entrevista, pois poderemos levar essas informações a muitas famílias que podem estar precisando de ajuda e não sabem qual caminho seguir, espero ter colaborado com um pouco de conhecimento que adquiri, mas ainda há muito conhecimento a se aprender com estudos, mas principalmente com eles.

O coração do Denver é garantir que o prazer esteja presente, que a motivação esteja presente, para que a criança generalize seus aprendizados (Thiago Lopes – Fundador do Instituto Farol). Gratidão.

Serviço –  Regiane Rissato atende na Clínica Aura: (19) 99695-8431 (WhatsApp).

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