“A maior dificuldade é que os pais entendam que nossa função é proteger a criança e o adolescente, e não educá-los”

Há pouco mais de um ano, o Conselho Tutelar de Socorro conta com uma nova formação. Nesta semana, entrevistamos os cinco conselheiros eleitos: Maria Munarão, Luiz Donizetti Felippin, Tonão Granato, Delmo e Iraí Tafner, que contaram um pouco sobre o trabalho e as dificuldades pelas quais passam.

Como avaliam o primeiro ano de trabalho do Conselho Tutelar?
Foi um ano muito produtivo, cheio de atendimentos e momentos marcantes. Muitos de nós já tínhamos consciência das situações pelas quais iríamos nos deparar, principalmente o Delmo, que já trabalhou como conselheiro e a Maria, que esteve na Assistência Social e acompanhava o trabalho do marido, Adriano. Porém, os novatos não imaginavam a situação de nossa cidade, principalmente relacionada a casos de negligência, evasão escolar, falta de estrutura familiar, na maioria dos casos, relacionados ao uso de drogas. O mais impressionante, ainda, é a naturalidade com que as crianças atendidas tratam esse tema, como parte de seu cotidiano.

Qual atendimento mais marcou e por quê?
O tipo de atendimento que mais nos marcam são os que nos levam ao ponto de tirar o menor do ambiente familiar e levá-lo para um abrigo. São crianças e jovens, dos quais a família já vem sendo acompanhada por um profissional, passam por atendimento psicológico, mas não trazem nenhum resultado. Na hora é muito difícil, mas, depois de um tempo, chegamos à conclusão de que foi a melhor atitude, pois a mudança em seu comportamento fica muito evidente. Temos diversos casos para utilizar como exemplo.
Outro tipo de situação bem frequente e que também lamentamos muito, quando nos deparamos com ele, são os casos de alienação parental, nos quais os pais usam os filhos para atingir o ex-companheiro: um fica denegrindo a imagem do outro para a criança. Nessa situação, temos de ser cautelosos e imparciais, priorizando sempre a proteção do menor.
Impossível não citar, também, os casos de estupro, agressão e negligência, que também são frequentes em Socorro e acabam marcando pelas diversas situações em que ocorrem, principalmente envolvendo familiares. É importante frisar o papel das escolas, nessas situações: os professores e diretores acompanham seus alunos, e qualquer mudança de comportamento pode ser apurada e relatada.
Falando em escola, temos inúmeras ocorrências de evasão escolar e, também, podemos até dizer, por consequência do uso e/ou tráfico de entorpecentes.

Como o Conselho Tutelar faz o trabalho de prevenção e combate ao uso de drogas com as crianças e adolescentes de Socorro?
Estamos para iniciar um projeto junto com o CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que envolverá as famílias com as quais o conselho trabalha, juntamente com a Saúde e Educação. Estudaremos os casos mais graves e buscaremos soluções em longo prazo.
Uma situação bem frequente em nossa cidade é que as ocorrências, frequentemente, envolvem a mesma família, mudando apenas as gerações, ou seja, temos que atender um menor, o qual sua mãe é usuária de drogas e já passou pelo Conselho Tutelar, por causa de seus pais. Esse projeto pretende focar nesse menor, evitando que as próximas gerações de sua família passem por este tipo de situação.

O Conselho Tutelar tem contado com apoio da Prefeitura?
Sim. Sempre que fazemos uma solicitação, o Poder Público atende, dentro das possibilidades; até o momento, grande parte de nossos pedidos foram atendidos. Contamos como o apoio dos assistentes sociais e profissionais que nos acompanham em alguns atendimentos, para auxiliar na abordagem com a família e, também, com o menor. Não podemos deixar de citar, novamente, a importância das escolas, sejam municipais, estaduais e particulares, das quais os diretores estão sempre em contato conosco.

Qual a maior dificuldade do Conselho Tutelar?
Uma das dificuldades, falando em Poder Público, é com o atendimento psicológico. Temos poucos profissionais, os quais não conseguem atender a demanda de nosso município. Por outro lado, muitas pessoas que recebem a indicação para um psicólogo não fazem o tratamento, principalmente aquelas que são encaminhadas ao AME, de Atibaia, em razão da distância, fato que acaba prejudicando os outros, já que a ausência de um paciente acaba fazendo com que a oferta de vagas seja reduzida.
Também acabamos lidando com muitas ameaças, em razão de certas atitudes que temos de tomar, em alguns casos. Nessas situações, contamos com o apoio da Guarda Municipal, que nos acompanha em diversos atendimentos.
Porém, a maior questão é que muita gente confunde o papel de um conselheiro tutelar. Somos cobrados para fiscalizar menores consumindo bebidas alcóolicas ou chamados para separar uma discussão entre pais e filho. Mas não é assim que funciona, nossa função é proteger a criança e o adolescente, garantindo-lhes a integridade física e psicológica, e não educá-los. Em casos de atos infracionais, em que os jovens são levados para a delegacia, somos chamados para auxiliar na identificação da família do menor, pois a responsabilidade é de seus genitores.

Algo mais?
A população também pode contribuir, fazendo denúncias, principalmente quando envolve maus tratos, negligência, abuso sexual, evasão escolar, pois, em muitos casos, só teremos ciência do que ocorre se houver uma denúncia, que pode ser feita pelo disque 100.
Lembramos que já estamos atendendo em novo endereço, à Rua Antônio Gonçalves Dantas, 125 – Vila Palmira. O telefone também mudou para 3895-1480. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

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