
O cabo Rafael Santos Lopes, 24 anos, fazia parte da Missão de Paz, no Haiti, quando ocorreu o terremoto que devastou o país, no dia 12 de janeiro.
Ele está no Exército desde 1º de março de 2004, prestando serviços no II BL0GL - Batalhão Logístico Leve, da 11ª Brigada de Infantaria, com base em Campinas, e apresentou-se como voluntário para servir no Haiti, para onde foi em junho/2009.
O cabo Rafael trabalhava no depósito de alimentos, dentro da base do Haiti, onde toda semana chegavam 20 toneladas de alimentos para a tropa, enviados pela ONU em contêineres, de navio, e levados em um caminhão Scânia para a base. Quando ocorria alguma sobra, esta era entregue para os orfanatos.
O Haiti é um país muito pobre, com um povo bastante sofrido. "As mulheres é que trabalham. Os homens perambulam pela cidade, em busca de alimento e de algum tipo de emprego. A terra é ruim, nada é plantado. Não há plano de desenvolvimento agrícola, não há água potável, rede de esgoto. Eles andam muito para buscar água para beber e cozinhar. 80% da população passa fome e se alimenta muito mal, uma vez por dia", conta ele.
A Missão de Paz é comandada pelo Brasil e o contingente é formado por soldados de vários países, que estavam preparando o Haiti para a autonomia política e social.
Quando o terremoto aconteceu, por volta das cinco horas da tarde, Rafael encontrava-se no alojamento, que começou a tremer e tudo ao redor balançava, caindo no chão: geladeira, armários... Ele e os companheiros saíram correndo e quando olharam para o prédio da Engenharia, só viam poeira. "Parecia que uma bomba tinha explodido. Um grupo desceu até a Engenharia e voltou, contando sobre o terremoto. Foi pedida uma reunião urgente com todo o contingente no pátio, onde já começavam a chegar os feridos da cidade. A equipe médica montou um hospital no pátio, quase na entrada da base, para dar atendimento aos feridos", conta ele.
O coronel mandou todos se trocarem, vestirem os uniformes, pegarem os equipamentos e quando estavam em forma, começou a distribuir as tarefas, sabendo que havia brasileiros, em vários lugares. Ele e um grupo acompanharam um comboio para irem até o Forte Nacional, uma base do Brasil na Capital Porto Príncipe. No caminho, já começaram a ver o caos total, casas e prédios caídos, muitas pessoas mortas e muitas berrando e gemendo. "Cheguei a ver crianças mortas sendo carregadas em baldes e bacias. Vi pessoas pedindo ajuda, soterradas, e não podia fazer nada, ou muito pouco, naquela situação", lembra ele.
A caminho do Forte, encontraram grupos de pessoas correndo em sentido contrário, por causa de um alerta de tsunami. Eles corriam do mar e o contingente ia para o Forte, na direção do mar. Pelo caminho tinham que retirar entulhos, árvores, veículos, pessoas mortas, para dar passagem ao comboio. Uma viagem que duraria 40 minutos, levou quatro horas.
Fora o grande terremoto, houve mais 26 deles, de menor intensidade e quatro também fortes. "Via o chão se movimentando como ondas do mar. Por onde passava, ia derrubando. O povo não chorava, cantava hinos, dando glórias a Deus. Esse canto nos preparava para mais um tremor de terra que vinha vindo", continua ele a narrar o que aconteceu.
No Forte, atendiam aos feridos e os preparavam para levar à base, onde começavam a chegar os mortos. Uma câmara de alimentos frios foi esvaziada para guardar os brasileiros e outros soldados mortos, entre eles o corpo da drª Zilda Arns. Os Estados Unidos, uma hora depois do terremoto, chegaram no aeroporto com mil homens e dois dias depois, com onze mil. Na Missão de Paz eles cuidam da segurança e o Brasil da ajuda humanitária. Tomaram conta do aeroporto e do porto, e o cabo Rafael voltou para a base, quatro dias depois de chegar ao Forte, para controlar os alimentos do depósito, pois não sabiam quando chegaria outro carregamento. Comiam o estritamente necessário, para que não faltasse nada, mas uma semana depois a distribuição foi normalizada.
A maioria dos soldados do Forte perdeu tudo, e uniformes, roupas pessoais e de cama foram divididos. "Quem tinha duas calças, dava uma; três camisetas, dava duas; e assim uns ajudavam os outros. Alguns só tinham a bermuda que usavam na hora do terremoto", diz Rafael.
Nos primeiros dias, foi quando mais sofreu. A todo momento lembrava-se de tudo, principalmente das crianças. Todo mundo estava nervoso, estressado. Durante dois dias dormiram duas horas. Para distribuir alimentos e água, não podiam parar o caminhão. Jogavam para a multidão que seguia atrás. O mesmo faziam os soldados americanos, de dentro do helicóptero, que voava baixo.
Como já estava previsto para acontecer, antes do terremoto, Cabo Rafael voltou para o Brasil no dia 25, chegando às quatro horas da manhã. No quartel, em Campinas, ficou de quarentena, fazendo exames de malária, sangue, fezes, raio X, psicológico, entre outros, e com ele está tudo bem.
Para Socorro veio na quinta-feira, dia 28, quando pôde abraçar os pais, a noiva Josilene e demais familiares e amigos.
Ele fica em Socorro por quinze dias, de férias e depois volta ao quartel de Campinas onde, a princípio, deverá prestar serviços dirigindo caminhão. Este é seu último ano no Exército e quando der baixa, pretende prestar um concurso para ingressar na Polícia Militar.
Por enquanto está tranquilo, aproveitando as férias, convivendo com os pais e com a noiva, a primeira pessoa com quem conseguiu falar, no Brasil, depois do terremoto, e a quem pediu para avisar aos pais que estava bem. Deste triste episódio, leva uma lição para sempre. "A gente não é nada nesta vida. De uma hora para outra podemos perder tudo e temos que dar muito valor ao que temos, à nossa família, amigos...", enfatiza ele.
Na foto, Cabo Rafael (o quarto em pé, da esquera para a direita), durante a missão, antes do terremoto no Haiti