Quem aprende a amar a leitura, nunca estará só, conclui a psicopedagoga

Em comemoração ao Dia do Livro Infantil, que acontece nesta terça-feira, dia 18 de abril, e para falar um pouco da importância da leitura de livros infantis, desde muito cedo, para as crianças, entrevistamos Telma Lia Peixoto Lauretti, pedagoga com especialização em Psicopedagogia e Educação Especial, e autora do livro infantil “A história de Socorro contada por Betinho Capivara”.

Ao longo da entrevista ela coloca muito bem o quanto essa prática é importante para o desenvolvimento infantil, para seu aprendizado sobre a língua, para a relação amorosa entre crianças e adultos, para o aprendizado que a criança levará por toda a vida. Confira!

Qual a importância do livro infantil na formação das crianças?
Ler para uma criança, desde bebê, é abrir para ela as portas do desenvolvimento pessoal. Primeiramente, do desenvolvimento da linguagem: aprender os sons da sua língua materna, as palavras, a formação de frases, os modos diferentes de falar. A linguagem vai propiciar o desenvolvimento do pensamento. Quem pensa bem, se dá melhor na vida. Além disso, o ato de ler para uma criança contribui para o desenvolvimento do afeto entre ela e o adulto que lê, pois essa leitura se dá num contexto de aconchego, de colo, de estarem bem próximos um do outro.

Quando começar a incentivar as crianças à leitura? Como desenvolver esse hábito?
Um hábito se instala quando fazemos alguma coisa, sistematicamente, muitas vezes seguidas. Com a leitura é a mesma coisa. Lê-se para a criança todos os dias um pouquinho, naquele contexto de aconchego. É o momento do dia em que todos da casa (crianças e adultos) podem parar o que estão fazendo e focar sua atenção no ver e no ouvir, geralmente, um pouco antes das crianças dormirem. A duração de uma leitura para crianças pequenas não ultrapassa 5 minutos, por história. À medida que elas crescem e gostam desse momento, elas pedem que se conte novamente a mesma história, ou mais outra. É um indicador de que esses momentos estão sendo prazerosos. O tempo diário que se investe nisso é muito pequeno, comparado ao benefício que trará à criança e que ela levará por toda a vida. E esses momentos não voltam mais, as crianças crescem e as oportunidades se perdem. Eu diria que esse benefício também se estende ao adulto, no exercício diário da atenção amorosa a essa criaturinha para a qual tudo é novo. E isso nos faz melhores pessoas.

Com qual tipo de leitura – contos de fada, aventuras etc. – é melhor para começar, para atrair a atenção das crianças?
Comece pelo tamanho do livro em relação à idade da criança. Quanto mais nova, menor o livro (com menos folhas). O que atrai a atenção são as ilustrações, bem simples, com poucos desenhos, sem exagero de cores e formas. Geralmente, referentes a animais, pessoas, objetos do ambiente da casa, paisagens e textos pequenos com frases curtas. O adulto leitor, com a criança pertinho dele, vai lendo sem pressa, deslizando o dedo indicador sobre o texto para a criança ir aprendendo que o texto é que contém o que ele fala.

Aponta figuras e diz seu nome, lê com entonação, expressivamente, ora imitando a fala da personagem, ora fazendo o som dos animais e dos objetos. Também faz perguntas à criança: onde está o peixinho? Como faz o gato? Quando a criança já tem mais idade, pode pedir-lhe a opinião sobre o que fez a personagem, se essa história poderia ter outro final etc., de forma a criar interação entre o leitor e o livro.

A propósito dessa pergunta, gostaria de lembrar que na área da literatura infantil, o Brasil possui muitos escritores e ilustradores de excelência, reconhecidos internacionalmente. A oferta de livros de qualidade é grande e diversificada.

Qual o papel dos pais e da escola nesse processo?
A ambos cabe garantir a oportunidade diária da leitura. As escolas, desde as creches, fazem leitura para as crianças, diariamente, como parte do seu currículo.

A família, antes do que a escola, inicia a formação do hábito, criando o contexto de prazer, de aconchego, durante todos os dias, inclusive fins de semana e férias. O contexto da leitura feita na escola e na família é diferente, e a criança se beneficia dos dois.

Vale lembrar que quando a família lê para a criança, desde bebê, ela a está introduzindo no processo de alfabetização, de conhecimento de como funciona o mundo letrado dos adultos. A leitura incidental na família também é muito importante, porque ela ocorre num contexto funcional, sem planejar. Por exemplo, ler na embalagem do produto o nome daquilo que a criança está consumindo; ler nas ruas os nomes de lojas, de painéis, sempre que aquilo puder chamar a atenção visual da criança.

Diante de tanta tecnologia (internet, tablets, celulares) como incentivar as crianças à leitura de livros?
Todos sabemos que é muito difícil fazer concorrência com a tecnologia, mas essa não é a questão. Se a família criar desde cedo o espaço e o tempo para a leitura e para a tecnologia, não haverá concorrência. Ambas têm seu apelo. A tecnologia é muito eficiente no apelo visual e sonoro, mas não inclui o aconchego, o afeto da companhia do adulto e a tranquilidade do momento. Não deve haver uma idéia de opção exclusiva, mas complementar. Tecnologia e leitura devem coexistir, porém quem decide quanto e quando de cada uma são os adultos da família, não a criança.

Algo mais?
Gostaria de lembrar algo que os adultos leitores habituais sabem muito bem. A leitura, quando somos crianças, traz prazer com afeto para quem lê e para quem ouve. Ao longo da vida, a leitura se torna ferramenta fundamental para o nosso crescimento, para termos nossa própria opinião e não dependermos da opinião dos outros. Além disso – o que é maravilhoso – quem aprende a amar a leitura, nunca estará só.

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