São justamente os desafios que nos movem, revela a professora Inês

Professora Maria Inês Specie no Museu da Roça, que registra a história da zona rural

“Não se trata do que ela ensina, mas do porquê ensina”, “Nos conhece e quando não conhece descobre”, “Jamais tinha pensado que o passado vivia em mim, ela me mostrou”, “Para ela não tem a distancia da pandemia, é como se estivesse conosco em casa”, “Se ela não acordar um aluno, ninguém mais faz.” Assim os alunos descrevem Maria Inês Specie, 52 anos, a professora de história da EE Profa Maria Helena Bonfá, em Visconde de Soutelo. Alegre e comunicativa, ela revela que os diversos desafios do cotidiano de um professor não a assustam, ao contrário, a movem.  Apaixonada pelo Visconde, ela é, hoje, a professora de História de todos os alunos do bairro e dos arredores. Realizada, sente-se na profissão certa, no local certo, na hora certa. Mas, nem sempre foi assim. Confira um pouco da trajetória dessa professora que se construiu profissionalmente a partir da inspiração e do apoio de outros professores.

Você sempre quis ser professora?

Não, tive um caminho até chegar onde estou. Trabalhei em malharia, fui escriturária na prefeitura, trabalhei na secretaria e biblioteca do Narciso. Quando pequena eu queria ser arqueóloga. Achava encantador o universo dessa profissão, mas tudo parecia ser muito distante, impossível mesmo. Conseguir fazer uma faculdade fora e o espaço em uma profissão fascinante; porém pouco valorizada, parecia não ser para mim. Mas, Dona Beth Pares me cativou para a História, que tem relação com a arqueologia. Me apaixonei pelo Egito, pela Idade Média por toda a “linha do tempo”. Ela foi minha professora mais ou menos dos 11 aos 15 anos. Queria ser como ela, foi minha grande inspiração, então tomei o desafio de estudar história.

Você usou a palavra desafio para o estudo da história, por quê? Há algo de difícil no curso?

Não, pelo contrário. A cada nova disciplina eu mais me apaixonava por história e pelo curso. O desafio, no meu caso, teve a ver com não ter a estrutura para apenas estudar. Antes de fazer história, eu já havia feito o magistério no Narciso e já trabalhava na secretaria do Narciso. Eu fui fazer a faculdade no “susto”, na FESB, inspirada mesmo na dona Beth. Trabalhava o dia todo e ia de ônibus para Bragança toda noite, era cansativo.  Mas minha paixão por história foi cada vez mais me fazendo querer dividir isso com outras pessoas, despertar essa paixão nelas. É isso que um professor almeja: despertar nos alunos a curiosidade, o interesse, a paixão pela sua área e a importância do conhecimento em nossas vidas.

Desafio de se formar vencido, como foi seu início como professora? Quais os novos desafios?

Por coincidência ou destino mesmo, minha primeira escola foi a do Visconde, em 95.  Foi tudo muito novo, um friozinho na barriga, um não ter muita certeza do que estava fazendo; mas os alunos me cativaram. Me apaixonei pela comunidade e pela sala de aula, mesmo percebendo que lecionar história não era tão simples e que nem todos tinham aquele meu encantamento pelo passado… Despertar a curiosidade – e quem sabe a paixão pela minha disciplina – era parte de minha tarefa e gostava disso. Foi quando compreendi o maior de todos os desafios, a meu ver, a falta de estabilidade que muitos dos professores têm. Eu não era efetiva e foram 11 anos trocando de escolas… Passei por quase todas as estaduais de Socorro e também por Águas de Lindoia. A falta de estabilidade me baqueou. Tentei fazer um concurso para me estabilizar e aguardei o telegrama avisando sobre a posse, o telegrama não veio e perdi o chamado. Então, me desiludi. Tinha um filho pequeno e meu marido abriu uma loja, representante da Claro. Fui trabalhar com ele e não pensava em retornar para a sala de aula.

Então, a falta de estabilidade e de vinculo afetivo com os alunos a fez desisti do sonho de fazê-los se encantar por história. O que a fez retornar? 

O verdadeiro sentido de ser professora e trabalhar em rede me fez retornar. No tempo em que estive na loja, constantemente colegas me chamavam para retornar. Em especial Marcia (Artes), Edna (Português), Socorro (História) e Marlene (Matemática). Elas sabiam que eu não dependia das aulas para me sustentar, mas também sabiam das minhas paixões: pela história, pelos alunos e pela sala de aula. Elas me fizeram ver que deveria retornar e vencer o obstáculo da falta de estabilidade. Então, fiz outro concurso para poder criar um vínculo com uma escola. Retornei a princípio como categoria O, mas um tempo depois fui chamada para assumir como efetiva na escola onde tudo começou.  Hoje penso que não poderia estar em outro lugar. E compreendo que o que faz ser professor interessante são justamente os diversos desafios.

Por falar em desafios, como você está encarando a “reinvenção pedagógica” necessária para se trabalhar com o ensino remoto?

As pessoas colocam as dificuldades de se trabalhar com a tecnologia, isso pode ser difícil para muitos de nós, entretanto penso que o grande desafio seja saber lidar com o emocional. No meu caso, eu acredito no laço afetivo, por isso a falta de estabilidade foi tão difícil para mim. Agora, o laço já existe, eu sou meio “mãezona”, busco sair de minha realidade e compreender a dos alunos… Trabalho com a empatia. Então, o difícil não está em conhecer a tecnologia e saber fazer uso dela para gravar vídeos ou dar aulas em plataformas. O difícil é lidar com o emocional, com não estar mais naquele espaço que se tornou como um lar. Está na saudade, na falta da convivência e do olho no olho que é marca dessa comunidade. Não escolhi trabalhar remotamente e nem meus alunos. Para vencer esse desafio, só mesmo lembrando a eles, todos os dias, que nada mudou em nós no que diz respeito às pessoas que somos e do que torna o nosso convívio especial.

Algo mais?

Sim, um recado para os jovens que se sentirem atraídos pela profissão: sigam em frente, é sim uma profissão cheia de desafios e angústias; mas que também realiza aquela pessoa que ama ensinar. A gente tem um retorno que outras profissões não conseguem dar. Todo o carinho que oferecemos, volta para nós multiplicado e isso é realmente muito gratificante. É saber que você, de certa forma, fará para sempre parte da vida de outras pessoas, pois contribuiu para descubram e aperfeiçoem seus potenciais e possam interferir positivamente na sociedade.

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