Socorro e a falta de água em São Paulo, socorro!

Lembro-me, desde criança, do velho discurso da guerra pela água: “Hoje a guerra é pelo petróleo, que logo acabará nos países ricos, assim como a água, e então irão invadir o Brasil e roubar o nosso recurso hídrico”. Quem um dia diria que a crise do petróleo e da água bateria em nossas portas ao mesmo tempo e tão breves? Antes de qualquer guerra, acabamos com nossos recursos hídricos, de forma tão rápida e espantosa, que nem pudemos nos preparar para nosso pior inimigo, a seca. A ironia se torna maior com o velho discurso do combate à biopirataria, a ideia de que americanos virão com seus tanques e roubarão nossas florestas, aquelas que nem temos mais, antes tivessem sido roubadas. Estamos acabando com nossa biodiversidade, destruindo as florestas e, consequentemente, nossos recursos hídricos.

O colapso da água não é uma novidade, vem sendo alertado desde 1900, por cientistas do mundo todo. E exemplos clássicos do declínio de civilizações não faltaram, assim como os Moais na ilha de Páscoa, onde a água acabou junto com as florestas, de tal forma que não sobraram árvores nem para fazer jangada para a população fugir da ilha, sendo quase que completamente dizimada.

Desta mesma forma vem ocorrendo a destruição de nossas florestas amazônicas, as quais desemprenham um papel de extrema importância para manter os recursos hídricos do sudeste e a temperatura do todo continente sul americano. A água que evapora das florestas chegam até o sudeste por meio das correntes de ar e enchem os reservatórios que abastecem os principais centros urbanos do país. Sem essas florestas, a região toda vai virar deserto, e neste, centros urbanos como a grande São Paulo, com quase 20 milhões de habitante, estará fadada ao êxodo. A multidão dos grandes centros será atraída para locais com recurso hídrico e nada mais atrativo que uma região orgulhosamente conhecida como “Circuito das Águas”.

Quantas pessoas nossa região poderá abrigar, antes de atingir o próprio colapso?  De certa forma esta migração poderia trazer desenvolvimento, atrairia pessoas com dinheiro, mais dinheiro que os moradores atuais. Esta migração faria com que houvesse grande especulação imobiliária, com casas e terrenos supervalorizados, consequentemente, faria com que alugueis subissem, assim como o valor do alimento e todos os itens de necessidade básica. A população mais pobre seria marginalizada por não sobreviver aos padrões formados, haveria um aumento de desemprego e junto a isso, a criminalização. Por fim, a água que é nosso bem mais precioso, que um dia jorrava dos “potes” da cidade, que hoje são raros, passaria, assim como vem sendo feito nos últimos anos sob os olhares desatentos da população, a ser um bem privatizado pelas pessoas com poder do capital financeiro. A população mais pobre da cidade seria a primeira a sofrer com a falta de água e o desemprego. Isto não é uma forma de repulsa à população das grandes capitais, no entanto é uma possibilidade à qual estamos fadados.

richieriContudo, apesar da seca pela qual estamos passando, a destruição das florestas amazônicas continuam. O tempo que você levou para ler este texto ao menos um hectare de floresta foi ao chão, na Amazônia.  E o que você fez? O que irá fazer? O problema é de todos!

 

Richieri Sartori

Biólogo e Professor de Bioestatística e Restauração Ambiental na PUC-RIO

Compartilhar/Favoritos

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Você deve ser de logged em para postar um comentário.