27º Encontro da Confraria

Leitura obrigatória

Ufa, que alívio! Eu não matei meu irmão!

A cena engendrada pelo professor Imir punha no palco a Maria Silvia e o Éolo, dançando um tango, certamente com toda aquela sensualidade que os portenhos dão ao ritmo. Ao último acorde eu entrava em cena, empunhado um punhal (que figura gramatical!) com os olhos embotados de ódio e lágrima (que interpretação!), envenenado pelo ciúme e matava… Quem?

Nestes últimos sessenta anos eu contei essa história com a certeza que o assassinado era meu irmão, mas eis que no 27º Encontro da Confraria, a Silvinha afirmou: era a mim que você matava. E com os detalhes da aflição de uma cena congelada: ela caída em meus braços (supostamente sangrando), implorando: fechem as cortinas… Fechem as cortinas que, puxadas por cordas em roldanas rangentes, demoravam uma eternidade para se encontrarem no centro do palco, pondo fim à tragédia e permitindo que o distinto público explodisse em merecidos aplausos.

Os encontros anuais da Confraria são como um anabolizante para nossa memória que, hoje, por mais que acreditemos o contrário, já esta um tanto falha e os locais, pessoas e atos acabam por se misturar e perderem a nitidez.
Vale a pena rever os amigos e ver nos olhos de cada um o brilho que só a alegria é capaz de estampar. Todos nós sabemos que cada um carrega sua história, com o peso que ela tem. Alegrias, dificuldades, sucessos, fracassos, apreensões, incertezas. Filhos e netos nos preocupam. Mas nesses nossos encontros, os deuses permitem que retornemos a nossa juventude e nos preocupemos tão somente com o abraço apertado, com o afago, com o beijo na face tão querida, com o calor das mãos se juntando. A emoção vem de uma magia que nos une numa cumplicidade da qual jamais abriremos mão.

Vocês que não vieram saibam que, irremediavelmente, vocês estiveram presentes. Não só porque cada um que chegava procurava notícias suas – quem viu? Quem falou com ele ou ela? Quem sabe como anda? – mas, principalmente, porque

aos ausentes foram atribuídas todas as responsabilidades por estripulias de autoria difusa. Vocês não são tão ingênuos de pensar que fosse diferente. A cada dúvida levantada – quem foi mesmo que cometeu aquela gafe? Quem pisou na bola? Quem entregou o ouro ao bandido? – um de vocês era eleito como autor direto, sem o menor constrangimento dos componentes da rodinha. No ano que vem apareçam e se defendam com as suas versões e seus embargos (refrigerantes ou adstringentes) e ponham os pingos nos is.

O 27º Encontro marcou também a introdução de um Laurel instituído pela Alta Cúpula da Confraria (que nunca foi eleita, mas cuja legitimidade ninguém contesta), com o qual se pretende homenagear pessoas e instituições. Este ano a escolha recaiu sobre a Imprensa Socorrense. Os jornais que circulavam nos anos 60, e marcaram nossa juventude: O Socorro Jornal e O Município.

Confraria 2

Os Diplomas foram entregues aos representantes das famílias Lorenzetti, Ferragutti, Baladi e Paiva, respectivamente, proprietárias daqueles periódicos. A Confraria, com toda propriedade e oportunidade foi além, e estendeu a homenagem aos artífices dos jornais. O tipógrafo – aquele que escreve com tipos – que ajustava no componidor, uma a uma, aquelas pequenas hastes metálicas que traziam no topo, fundida, a letra invertida, formando o espelho com as palavras, depois as frases, o período e por fim o texto, que era passado ao paginador, que produzia a prova a ser examinada pelo revisor. Feitas as correções e ajustes, entrava no processo o impressor. Loas a todo esse pessoal, muitos dos quais, em pleno anonimato, construíram páginas que forjaram o caráter e ensinaram o belo, o justo e o amor a nossa terra e a nossa gente.

 

 

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