Hoje: De moto ao Atacama

Leitura obrigatória

Nesta semana, quem nos conta sobre a aventura de quase dez mil quilômetros, passando por três países, de moto, é o socorrense Richieri Antonio Sartori, professor de bioestatística e restauração ambiental da PUC-RIO. Confira!

Alguns lugares são mágicos. Lugares que são verdadeiras obras de arte da natureza, obras estas que levaram milhões de anos para ser formadas. Esculpido pela erosão, soerguido por placas tectônicas, alterado pelo vento e pelo sol, em uma lenta transformação de cerca de 150 milhões de anos, assim é o deserto do Atacama.

Com mais de mil quilômetros, estende-se pelo Chile, Argentina, Bolívia e Peru, e é considerado o deserto mais árido do mundo. Mais fabuloso do que ir ao Atacama, é chegar lá, em uma viagem de dez dias, acompanhando todas as mudanças do ambiente. Eu, como biólogo, saindo da Mata Atlântica, passando pela floresta de araucárias, pelos pampas argentinos, pelos charcos, até chegar ao deserto, foi realmente fantástico. Para completar, tudo em uma moto, acompanhado por mais 13 companheiros e um carro de apoio, totalizando 19 pessoas.

Foi um mês de viagem e quase dez mil quilômetros, passando por três países. Apesar de sairmos do Rio de Janeiro, fomos encontrar nosso grupo somente em Foz do Iguaçu. As distâncias percorridas variavam entre 300 a 820 km por dia, tendo paradas de duas noites, em locais estratégicos.

Realmente, não era uma viagem simples! Tudo na região desértica ocorre de forma drástica; de manhã, o sol é escaldante e, assim que se põe a temperatura de 35 a 40 graus cai rapidamente para zero, e permanecer na estrada, neste momento, é correr o risco de uma hipotermia. Dificilmente há chuva, mas quando chove, ocorre de forma intensa, com ventos que podem, facilmente, jogar um carro para fora da estrada. Pudemos presenciar esse fato, na viagem.

Acredito que a passagem mais tocante foi a saída de Salta, na Argentina, com chegada a São Pedro do Atacama, no Chile, em um trajeto de 950 km. Tocante não só por chegar ao destino mais esperado, mas também, pelo trajeto e pelo clima. Chegamos a Salta, depois de seguir por uma reta que cortava a região norte de pastagens, da Argentina; foram mais de 500 km de uma reta feita com uma precisão cirúrgica: perdíamos a estrada de vista, no horizonte. Não se via uma viva alma, raramente casas isoladas e, assim, os postos de gasolina eram ainda mais raros. Chegamos a Salta no dia 7 de janeiro e saímos no dia 9.

De Salta, seguimos para uma cidade chamada Susques, por uma estrada fabulosa, em uma das raras regiões de floresta da Argentina e por lá subimos os Andes. A estrada era mais estreita que uma ciclovia, com asfalto e sinalização impecáveis, mas onde mal passava um carro e por onde perambulavam livremente cavalos, pessoas e cabras. Assim, adentramos ao deserto, circundando um rio intermitente, coberto de seixos, que escavou um gigantesco canyon, por cujo interior passamos.

Chegando a um dos topos vimos, ao longe, em uma grande planície, um Salar: uma imensidão branca do que um dia foi o fundo de um oceano e, agora, a três mil metros de altitude, passou a ser o topo das cordilheiras. Chegamos cedo a Susques, cidade com cerca de 1500 habitantes que viviam da mineração, no meio de um nada, de extremo deserto por todo lado. Alojamo-nos em um hotel na estrada, onde ficava o único posto de gasolina, com uma única bomba, em cerca de 300 km. Chegamos cedo, mas não seguimos adiante, pois o caminho à frente poderia ser traiçoeiro, depois que anoitecesse. Contemplamos o deserto e as criações de lhama que ali existiam. Assim que o sol se foi, em poucas horas, o calor do deserto chegou a dois graus.

Saímos pela manhã, com toda a roupa que havíamos levado, em um frio de seis graus. Dali, seguimos cerca de 120 quilômetros até a divisa com o Chile. Nesse caminho, Isabel se encolhia atrás de mim, e dizia que o frio estava insuportável, contando os quilômetros para chegarmos ao nosso destino.

A entrada no Chile não foi tão simples: ficamos cerca de quatro horas, esperando, para podermos passar pela aduana. Durante essas horas, o sol saiu e o clima desértico esquentou. Como o calor chegava, o grupo ia se despindo das camadas de blusas e das luvas. Assim que entramos no Chile, entendi que iríamos realmente enfrentar os Andes. Em cerca de uma hora, subimos mais de 2500 metros de altitude, chegando ao ponto mais alto de nossa viagem, 5000 mil metros, e ali vimos que o calor havia nos enganado, mostrando o erro de tirar as roupas. Assim que chegamos ao ponto mais alto, uma gigantesca nuvem negra surgiu no horizonte e foi exatamente para ela, que seguimos.

A primeira rajada de vento já fez com que a moto saísse da estrada e me jogasse quase do outro lado; dali para frente era domar a moto e não deixar que o vento nos empurrasse para fora. Pouco tempo depois o vento não veio só, trouxe também a chuva e a temperatura de cerca de 40 graus caiu para dois. Foram cerca de 30 minutos, as mãos eu já não sentia, tinha medo de não conseguir trocar mais as marchas da moto, seguia colocando a mão no motor e no escapamento, para esquentar. Um vento que empurrava a moto para fora da pista, para um acostamento de terra e pedra, com largura de um metro, antes de um penhasco. Fui o quanto deu e parei a moto, para colocar o restante da roupa; neste momento éramos somente quatro motos, as outras já haviam parado a alguns quilômetros, sem que tivéssemos visto. Dois brasileiros, vindos de moto em direção contrária, alertaram que à frente havia uma chuva de gelo e o asfalto possivelmente estaria congelado. O frio era tanto, que um deles não conseguia colocar a luva, por não estar sentindo as mãos; posicionei-as na saída do escapamento e, depois de secas, ajudei-o a colocar as luvas. Seguimos viagem e nos encontramos com o resto do grupo. Pouco tempo depois, lá em cima – o horizonte, lá embaixo – o Atacama, com todo seu esplendor e, ao lado, margeamos o vulcão Licancabur. Minutos depois a temperatura já estava novamente nos seus 40 graus, em um lugar que posso dizer ser o local mais fantástico no qual já estive em minha vida.

Passamos por muitos lugares bonitos e interessantes, incluindo Santiago, capital do Chile e Mendoza. Foi uma experiência inigualável, com possibilidade de conhecimento sobre a moto, os lugares, as culturas, os próprios limites e claro, agora, com novos amigos para futuras aventuras. Foram dias emocionantes!

 

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