Hoje: Perú / Bolívia

Leitura obrigatória

Nossa coluna desta semana descreve a jornada do Maurício Conti, que tinha o sonho de desbravar a Estrada do Pacífico. Acompanhado da esposa Jucélia, eles saíram do Brasil pelo estado do Acre, passando por Peru e Bolívia, retornando pelo Mato Grosso, com um saldo de 11.000 km percorridos, em 21 dias de viagem. Confira!

Relato de uma aventura

Como boa parte das pessoas, gosto de viajar e de conhecer novos lugares. Na verdade, conheço pouquíssimas pessoas que não gostam de duas coisas: de batata frita e de viajar. Além dessa “tropia” por turismo e estar em novos e diferentes lugares, sempre apreciei viagens rodoviárias, quer sejam elas de ônibus ou de carro. Evidentemente, o avião te leva de forma mais rápida e até mais segura, ao seu destino final, mas, por terra, podemos conhecer detalhes do local que estamos visitando, participar do dia a dia da população, e deixando de ser “um pouco” somente turistas visitantes, passando a conhecer um pouco mais os costumes e a cultura do local que se está conhecendo.

Por criar essa afinidade com turismo rodoviário, já fiz algumas rotas memoráveis pelo Brasil (algumas vezes ao Sul e Nordeste, outras pelo Centro-Oeste e região do Cerrado Brasileiro), América do Sul (chegando até as estações de esqui da Argentina e Chile), EUA (fazendo a famosa HWG-01 – High Way 01, que acompanha a Costa Oeste/Pacífica daquele país, ligando San Francisco a Los Angeles) e até a “Garden Route / Rota dos Jardins”, que margeia o Oceano Índico na África do Sul, ligando Porth Elizabeth à Cidade do Cabo.

Tudo começou há alguns anos, quando vi que Brasil e Peru estavam concluindo a “Rodovia Transoceânica, ou Estrada do Pacífico”, a qual seria uma nova rota de escoamento da produção desses dois países, ligando o Atlântico ao Pacífico, saindo do Brasil via estado do Acre, e passando por um destino que sempre imaginei conhecer, que era Cusco / Machu Pichu. Nascia ai o projeto de mais uma jornada, pois poderia juntar várias possibilidades de passeio, em um único roteiro: desde passar por estados do Brasil e suas capitais, que eu desconhecia (Rondônia – Porto Velho e Acre – Rio Branco), passando pelas sonhadas Cusco e Machu Pichu, as Linhas de Nasca, que são patrimônio cultural da humanidade, segundo a UNESCO, podendo chegar ao Oceano Pacífico, a histórica Arequipa, segunda maior cidade do Peru; e fazer uma rota de volta, a qual incluiria a passagem pela Bolívia e algumas de suas belezas naturais, como o Lago Titicaca (divisa entre Peru/Bolívia), Salar de Uyuni, a Death Road ou Rodovia da Morte, próxima à capital do país, La Paz, para quem não ouviu falar, uma estrada de terra, com desfiladeiros de 900 metros de altura, “meca” de quem aprecia ciclismo, onde se tem o maior Down Hill do mundo, com 95 km de percurso, e podendo voltar ao Brasil por Corumbá e Campo Grande (Mato Grosso do Sul) ou Cáceres e Cuiabá (Mato Grosso).

Claro que uma viagem como essa, que alguns amigos chamaram até de “expedição”, envolvia uma série de cuidados prévios e providências. A organização incluía desde mapas e atualizações das rotas, dos sistemas de GPSs (por segurança, levamos dois sistemas de navegação diferentes, para evitar falhas), passando por seguro do veículo e de saúde/assistência médica (pois ambos são válidos somente em território nacional), vacinas obrigatórias em alguns locais a serem visitados e chegando até a documentação necessária para se andar com um veículo licenciado, e com placas do Brasil, cruzando países estrangeiros, sem risco de ser autuado ou até apreendido pela polícia rodoviária local, lembrando que Peru e Bolívia não fazem parte diretamente do MERCOSUL e, sendo assim, apresentam algumas legislações de trânsito diferentes de nossos vizinhos mais próximos: Argentina, Uruguai e Paraguai. Durante o planejamento dessa viagem, fui informado da necessidade de fazer um licenciamento e seguro obrigatório nesses países, semelhante ao nosso DPVAT; e o registro do veículo como próprio e destinado a turismo, nesses países. Ou seja, toda essa logística necessitou da busca de informações e orientações para evitar surpresas, durante o trajeto. Tudo planejado e providenciado, hora de por os pneus na estrada.

A parte desconhecida do trajeto era a partir da capital do Mato Grosso, Cuiabá, onde fizemos um pernoite em Vilhena, já no estado de Rondônia. No dia seguinte passamos e pudemos conhecer a capital, Porto Velho e o Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), estrada de ferro que foi um marco na história do Brasil, tema da minissérie Mad Maria, da Rede Globo. Seguimos para a divisa entre três estados do Brasil (Rondônia, Amazonas e Acre), onde se localiza a represa de Jirau e chegamos a Rio Branco, capital do Acre, com toda sua história e riqueza do ciclo da borracha e a reverência a Chico Mendes, em seu Memorial. Passamos pelos entremeios das divisas de Brasil/Bolívia, nas cidades de Brasiléia e Cobija e Brasil/Peru, nas cidades de Assis Brasil e Inãpari. Pernoitamos em Puerto Maldonado, capital do departamento Madre de Dios e da província de Tambopata, e que fica exatamente no meio do caminho entre Rio Branco – Acre e Cusco – Peru.

No dia seguinte chegamos a Cusco, subindo a Cordilheira dos Andes e, apesar de estarmos em janeiro, verão do Hemisfério Sul, pelas altitudes de mais de 4.700 metros em alguns pontos das estradas, deparamo-nos com nevascas, o que deixou a viagem ainda mais bonita. Permanecemos em Cusco por três dias, conhecendo essa cidade de colonização espanhola, com suas igrejas repletas de ouro, seu Mercado Municipal, com comidas e cereais totalmente diferentes do que conhecemos e estamos acostumados e, também, a imponência e beleza de sua “Plaza de Armas”. De Cusco pudemos ir a suas maiores atrações, tais como o Valle Sagrado, Águas Calientes e a tão sonhada Machu Pichu, para aonde fomos de trem com janelas panorâmicas, apreciando a paisagem. Seguimos viagem pelo Altiplano Andino, rumando sentido oeste, onde cruzamos a cordilheria, passando por Ica e Pisco, chegando ao Deserto de Nasca e suas “LINEAS”, e encontramos o Oceano Pacífico, do outro lado do nosso continente.

Após seguir margeando o Pacífico, pela “Ruta Pan-americana” (estrada que se inicia em Ushuaia – Argentina e termina no Alaska – EUA) voltamos a subir a Cordilheira dos Andes, iniciando o caminho de volta. Pudemos conhecer Arequipa e suas construções feitas com rochas vulcânicas, já que a cidade é rodeada de vulcões, sendo alguns ativos e, na sequência, chegamos a Puno, às margens do Lago Titicaca, que é o maior lago navegável comercialmente, e de maior altitude do planeta, situando-se a 3.800 metros do nível do mar, formado pelas águas do degelo das montanhas, ao seu redor. No Titicaca pudemos visitar as Ilhas flutuantes de Uros, com uma população atual de mais de dois mil habitantes, vivendo há mais de 500 anos, sobre ilhas artificiais que o povo Aymara formou, com uma espécie de junco, que eles chamam de “totóra”. Uma situação diferente de tudo que já vi na vida, tema de diversos documentários que assiti e resolvi ir conhecer “in loco”.

Saímos do Peru e entramos na Bolívia pela cidade turísitica de Copacana, a qual recebe esse nome por estar situada em uma curva do Lago Titicaca, semelhante à nossa Praia de Copacabana, no RJ. Fizemos todo o trâmite de fronteira/aduana e seguimos para La Paz, cruzando o Titicaca em balsas de madeira. Na capital da Bolívia pudemos contratar um guia que nos levou fazer o que é conhecido como “Extreme Down Hill”, descendo desde La Cumbre, um povoado todo nevado, próximo a La Paz, a quase 5.000 metros de altitude, até a cidade de Coroíco, a cerca de 900 metros, já na região da Amazônia Boliviana, num desnível de mais de 4.000 metros, em 95 km de trilhas, nas quais se passam as quatro estações do ano, em um único dia! Neve, neblina, chuva a um calor úmido típico da nossa região de florestas… Em uma palavra: DEMAIS!

Depois de um dia todo de trilhas e uma boa noite de descanso, seguimos para Oruro, onde nos encontramos com a “trupe” do Rally Dakar, e rumamos para Cochabamba, de onde descemos novamente a cordilheira, chegando a Santa Cruz de La Sierra. Entramos no Brasil por Puerto Aguirre / Corumbá, cruzando o Pantanal e chegando a Campo Grande. Da capital do Mato Grosso do Sul, viemos dormir em nossa casa, com muitas fotos registradas e histórias pra contar.

Alguns podem achar estranho se fazer uma rota dessas, por sua própria conta e risco, e de carro; mas como disse inicialmente, somente assim temos a possibilidade de conhecer cada local que desejamos e a liberdade de ficar mais tempo, se for necesssário, ou de seguir adiante, quando achamos que já conhecemos o que havia de bom naquela região. Nossa viagem não foi para um determinado ponto, atração turísitica ou cidade. Costumo fazer nessas viagens/rotas, o que eu costumo fazer na vida; não faço da viagem (e da vida) a espera de chegar a um determinado ponto; aproveito e saboreio cada momento, cada curva e cada paisagem, pois penso que a vida deve ser vivida e aproveitada, assim como cada dia e cada local que tenho a oportunidade de conhecer.

Para reforçar essa forma de pensar, quero registrar dois pensamentos. Uma frase de autor desconhecido: “A vida deve ser uma JORNADA, não um destino”. E um trecho de autoria do jornalista e escritor norte-americano, Hunter S. Thompson, que traduz esse espírito. Ele diz: “A vida não deveria ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar com segurança em um corpo bonito e bem conservado, mas sim chegar derrapando de lado, em uma nuvem de fumaça, completamente desgastado e destroçado, e gritar em voz alta: Ufa… Que viagenzinha!”

Finalizo, completando que, se alguém que leu esta matéria, ou acompanhou as fotos e filmes que postamos nos facebook e instagran, durante a viagem, de alguma forma ficou tentado a repetí-la, pode nos convidar para um papo e eu dou todos os detalhes e facilito a jornada de quem quiser trilhar esse caminho. Será uma satisfação!

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