Quem passa apressado pela rua principal talvez não perceba que, naquela casa de portões abertos e jardim cuidado, o destino de dezenas de famílias está sendo reescrito. Em maio de 2026, quando a Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/2001) completa seu jubileu de prata, o debate sobre os espaços de cuidado para quem enfrenta o sofrimento mental ganha um novo fôlego. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) surge neste cenário não apenas como um serviço de saúde, mas como o símbolo máximo de que a liberdade é, de fato, o melhor
remédio.
Há exatos 25 anos, o destino comum para crises severas eram os hospitais psiquiátricos de longa permanência – os manicômios
-, onde o sujeito frequentemente perdia seu nome, suas roupas e seus vínculos fundamentais. Hoje, o modelo de cuidado territorial
inverte essa lógica perversa sob a premissa de que o tratamento deve acontecer onde a vida pulsa. Quando o atendimento é realizado na própria região de moradia, evita-se que o indivíduo se torne um “fantasma social”, garantindo que ele não perca o contato com o padeiro,
com o vizinho e, principalmente, com sua rede de afetos. Manter esses fios conectados é o que sustenta a dignidade humana.
Diferente dos antigos hospitais, o CAPS funciona como um dispositivo de porta aberta, onde o cuidado é personalizado através
de Projetos Terapêuticos Singulares que vão muito além da medicalização. O cotidiano nessas instituições é pautado pela
reconstrução da cidadania, envolvendo oficinas de geração de renda para a autonomia financeira, assembleias onde usuários
e familiares decidem coletivamente as regras de convivência e uma constante articulação com a cidade. Ocupar praças, museus
e espaços públicos é parte integrante da cura, pois rompe com o estigma da periculosidade.
Apesar desses avanços históricos, o movimento antimanicomial acende um alerta necessário neste ano de 2026. O crescimento do financiamento público para as chamadas “Novas Manicomialidades”, como Comunidades Terapêuticas e outras instituições de isolamento,
é preocupante. O mote da campanha atual, “Liberdade não se tranca, se constrói”, reflete a resistência contra a ideia de que o sofrimento mental deve ser escondido ou silenciado atrás de muros. O manicômio, afinal, não é apenas um prédio físico, mas uma mentalidade de exclusão que precisa ser combatida diariamente.
Neste 18 de maio, as mobilizações reforçam que o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a extinção definitiva dos manicômios judiciários são urgências democráticas. A Reforma Psiquiátrica completou um quarto de século, mas sua manutenção exige uma
vigília constante. Afinal, cuidar em liberdade exige muito mais do que a existência de leis; exige uma sociedade disposta a manter as portas abertas e a acolher a diferença como parte constituinte da vida em comunidade.
Psicóloga Dra. Maria Beatriz Zanarella Cruz
Psicóloga Especialista Fabiana de Fátima Galvão
Psicóloga Especialista Jés- sica Inacia Eulalia Silva
Psicóloga Especialista Vic- tória Couto
Assistente Social Maria Jaqueline Mazzolini
Para O Município







